2010: PAZ

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- agosto 29, 2013

Impossível deixar de comentar a crise no Oriente Médio. Mais uma guerra sangrenta cujo resultado é incerto: garantir segurança para qualquer lado envolvido. Como judeu, não é possível se dizer neutro diante do conflito, porque a segurança de Israel representa também a garantia de sobrevivência aos judeus no mundo inteiro.

 

Só podemos desejar que seja possível algum dia haver uma coexistência pacífica entre israelenses e palestinos, de modo que as crianças de cada uma das partes possam estabelecer parcerias consistentes na construção de um Oriente Médio mais justo, valendo lembrar que os dois povos podem se complementar em termos de capacidades e oportunidades.

 

Israel escolheu um caminho arriscado nessa etapa, pois o risco maior é o de potencializar o ódio dos palestinos, aumentando a penetração do Hamas como opção política-eleitoral. Este programaticamente defende a destruição do Estado de Israel, o que torna, em princípio, inviável qualquer tipo de negociação política. Por outro lado, obviamente a sociedade israelense dificilmente aceitará qualquer concessão que não lhe traga o reconhecimento do direito à segurança de sua população em relação a ataques terroristas e até mesmo à existência do próprio Estado de Israel.

 

Em 48 se previu a criação de dois estados e, na minha opinião, a criação do Estado Palestino é condição sine qua non para qualquer solução política de longo prazo. Alguns anos atrás tudo levava a crer que a paz chegaria à região, mas infelizmente o sonho não se realizou e parece cada vez mais distante no horizonte.

 

Espero que seja possível ainda este ano encontrar uma solução para o problema, uma vez demonstrado que o conflito, tal como se encontra agravado pela escalada de violência, é insustentável. Enfim, para nós, distantes do sofrimento gerado por esta situação, resta manifestar com toda a intensidade a esperança de que a crise ofereça alternativas viáveis e que elas revelem a possibilidade de se assegurar aos cidadãos que lá vivem uma convivência digna.

 

No Brasil, talvez a notícia mais estarrecedora seja o número de vítimas dos acidentes ocorridos nas estradas neste final de ano. A maior parte destes, tendo como causa principal a imprudência dos motoristas. Fica sempre uma tentativa de explicação sobre o que fazer: aumento de penalidades, campanhas educacionais, enfim, a busca de uma resposta a um problema crônico que se repete a cada feriado prolongado. O motorista imprudente é um personagem que merece reflexão, pois expõe a riscos a si mesmo e à sua família, bem como a terceiros. O que fazer para enfrentar uma situação que gera centenas de mortos e feridos? Como reagir a um resultado semelhante ao da guerra em curso no Oriente Médio nesses últimos 10 dias?

 

São situações completamente diferentes quanto às causas, mas que demonstram a dificuldade que a humanidade desde os seus primórdios encontra em justificar a barbárie pela qual é responsável. No caso da guerra, o anonimato afasta o responsável da vítima, enquanto que no caso das mortes nas estradas, o responsável por imprudência conhece a sua vítima na intimidade: é o motorista que produz a tragédia que alcança sua mulher, seu filho, seu amigo.

 

Se me perguntarem que notícias gostaria de ler em janeiro de 2010, diria: paz no Oriente Médio, paz no trânsito e paz com a natureza.

Publicado no terra Magazine.