A agenda do século XXI

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- outubro 14, 2013

Voltando de uma viagem à Alemanha, certamente é impossível deixar de assinalar a gravidade da crise do Euro, especialmente com a decisão do governo grego de submeter o plano de austeridade à consulta popular.

A estabilidade da moeda é fundamental para o mundo, de modo que há que se encontrar uma solução que permita resolver o problema politicamente, ainda que pesem dúvidas sobre a implementação dos compromissos políticos. A solução se dá aos poucos, sendo importante a sinalização de que ela é viável.

É inegável que nesta crise emergiu a liderança política da primeira ministra Ângela Merkel e também a figura patética de Silvio Berlusconi, cuja credibilidade perante a comunidade europeia é extremamente frágil.

De qualquer modo, a crise demonstra a necessidade de novos arranjos político-institucionais que assegurem, no futuro, maior estabilidade para o Euro e para a economia global.

É bom ressaltar que o aprofundamento da crise europeia afetaria os países emergentes, cujas economias dependem do mercado europeu, a exemplo da China e do próprio Brasil. Diminuindo-se a capacidade de exportar desses países, suas economias poderão ser afetadas, com consequências conhecidas.

É impressionante como o Brasil adquiriu uma relevância no cenário internacional, o que traz grandes oportunidades e responsabilidades do ponto de vista político.

Se até recentemente éramos periféricos, hoje há uma enorme expectativa do protagonismo brasileiro do ponto de vista geopolítico. Qualquer um de nós sente esta expectativa nas reuniões das quais participamos, o que é um fenômeno relativamente recente.

Creio que diante deste cenário a Rio+20 pode ser uma grande oportunidade para o Brasil liderar o mundo em relação a outra crise, de consequências mais sérias e permanentes, relacionada ao clima do planeta e ao uso dos recursos naturais.

O protagonismo do Brasil, nesta crise, é absolutamente necessário pelo fato de que temos uma condição privilegiada: portadores de uma enorme biodiversidade e da maior bacia hidrográfica do planeta, uma comunidade científica respeitada internacionalmente, setor empresarial cosmopolita, sociedade civil bem organizada e tradição diplomática nas negociações internacionais.

A condição necessária para que o Brasil exerça esta liderança depende fundamentalmente da presidente Dilma. Ela tem que estar convencida de que a sua liderança pessoal é fundamental nesses meses que antecedem a Rio+20 e deve avocar, para si, o protagonismo brasileiro, buscando ter clareza sobre os resultados do próximo ano.

Mas, para isso, a presidente deve estar convencida de que esta crise planetária existe e de que se não houver o senso de urgência para o seu enfrentamento, as consequências serão dramáticas.

No plano doméstico, a presidente terá, certamente, o apoio necessário da sociedade civil e dos outros atores importantes, independentemente de disputas políticas partidárias.

Ao convocar tais atores em cima desta agenda necessária e urgente, os mesmos, sob sua liderança, poderão promover as articulações necessárias a garantir o sucesso da Rio+20 neste pouco tempo que resta até o ano que vem. Assim, o Brasil poderá atender a expectativa que o mundo tem, de que ele possa ser efetivamente um país líder na agenda do século XXI.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 7 de novembro de 2011.