A crise: nada será como antes

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- setembro 9, 2013

No mundo o tema é a crise.

Como já dissemos anteriormente nessa coluna estamos diante da oportunidade de redirecionarmos a sociedade em que vivemos na direção da sustentabilidade, ou seja, redesenharmos as instituições, marcos regulatórios, criarmos novos espaços de participação mais democráticos. Enfim, assegurarmos melhores condições de prosperidade para todos.

Não há como deixar de mencionar que a eleição de Obama nos EUA significa um capital de mudanças, tema da campanha, e de esperança que a maior potência mundial assuma uma liderança pró ativa em favor de condições globais que alavanquem a economia mundial, com o objetivo de assegurar maior equidade na distribuição dos benefícios do crescimento econômico, maior igualdade de oportunidades individuais. E também combate ao aquecimento global, através de criação de uma infra-estrutura de oferta de energia mais limpa e de uma melhor organização de sua demanda, entre outras iniciativas importantes.

No Brasil, infelizmente não se vislumbrou a oportunidade de combater a crise e ao mesmo tempo promover inovações importantes no campo da sustentabilidade. Vimos o governo federal e o de São Paulo auxiliarem as montadoras de veículos com a finalidade de assegurar a produção industrial através da manutenção do crédito, entretanto, sem exigir medidas de eficiência nos padrões de consumo dos automóveis, o que traria benefícios ao consumidor na ponta, bem como ao país em termos de menor demanda de energia.

Fico surpreso com o fato de que não conseguimos inovar nessa agenda, valendo lembrar que há décadas os EUA definem padrões de eficiência para os automóveis, mesmo quando o Brasil sofreu severamente a crise do petróleo na década de 70. Os mais jovens não vão se lembrar, mas o abastecimento nos postos ficou proibido nos finais de semana, e muitas medidas semelhantes foram adotadas, a exemplo do compulsório sobre a venda dos combustíveis

Conversando com os ambientalistas a esse respeito sempre surge a questão: por que é tão difícil convencer os governantes a respeito de medidas como a que estamos discutindo nesse artigo? O que é necessário para avançar concretamente em questões como a do aquecimento global, combate à poluição do ar nas grandes regiões metropolitanas, enfim, tornar esses temas itens prioritários na agenda do país?

Marcos Vale, ambientalista de longa data, acredita que o ambientalismo contemporâneo deve fazer frente às complexidades da sociedade em que vivemos e deve ser capaz de apresentar soluções inovadoras na forma e no conteúdo. Em outras palavras sugere que sejamos capazes de articular parcerias estratégicas com o setor empresarial, bem como mobilizar a sociedade em questões emblemáticas. É otimista em termos da capacidade do próprio movimento se reinventar e que não se pode menosprezar o grau de consciência que a própria sociedade tem dos problemas ambientais.

Certamente os próximos meses serão decisivos para o futuro próximo, de modo que as decisões a serem tomadas terão enorme impacto nas próximas décadas. O ambiente criado pela crise propicia e requer que sejamos capazes de repensar a economia globalizada, uma vez que está claro que o poder público nacional e internacional tem um papel relevante no processo de resolução dos problemas. Em outras palavras, a hora é propícia para uma agenda de transição na qual se tenha clareza de que é possível se colocar ou recolocar a ideia da sustentabilidade ou do desenvolvimento sustentável, não como uma abstração a exemplo da Eco 92, mas como uma equação de caráter operacional que compatibilize crescimento econômico, justiça social e respeito ao meio ambiente com visão de longo prazo.

Para usar uma expressão típica das discussões climáticas, trata-se de se mudar o “business as usual” por uma visão que inove, de modo que a vida também seja diferente a partir de agora, com novas práticas e valores que permitam maior bem estar para todos sem comprometer as futuras gerações.

Publicado no no Terra Magazine.