A hora é agora: pelo bem de todos nós

Artigos

- agosto 29, 2013

Há alguns meses tenho escrito nesta coluna que a crise financeira se coloca como uma oportunidade de se redefinir os caminhos para um desenvolvimento que rume em direção à sustentabilidade. Entretanto, passados alguns meses do anúncio da crise, o quadro que se delineia é um pouco diferente do esperado, ao menos por nós, defensores de um planeta mais sustentável.

 

Em artigo da edição “The world in 2009” da revista The Economist, o editor Daniel Franklin prevê para o novo ano que na medida em que a recessão avançar, que o desenvolvimento reduzir o passo e que as falências e multiplicarem, a palavra sustentabilidade ganhará um novo significado nas reuniões dos conselhos das empresas. Sustentabilidade não significará mais desenvolvimento econômico com preservação ambiental e justiça social, mas manter-se no negócio. Ou ainda no contexto dos governos, eu diria que de Desenvolvimento Sustentável voltaremos a Sustentar o Desenvolvimento, custe o que custar.

 

Os vultuosos investimentos em comunicação social, projetos comunitários, e principalmente as chamadas iniciativas verdes sofrerão severos cortes. Aqui no Brasil, esta previsão já se mostra real diante do encolhimento de equipes e orçamentos nos departamentos de sustentabilidade das principais empresas brasileiras.

 

O fenômeno da Responsabilidade Social Empresarial no Brasil sem dúvidas pode ser considerado como um dos mais significativos no mundo, tendo colocado a comunidade empresarial brasileira no mapa do pioneirismo em sustentabilidade. Colegas meus relataram que na Conferência da Global Reporting Initiative – organização que divulga diretrizes para elaboração de relatórios de sustentabilidade-, realizada em maio do ano passado em Amsterdam, a presença brasileira era maciça e que muitas vezes só se ouvia português pelos corredores. Isso se deve ao grande esforço das empresas brasileiras em reportar seu desempenho em sustentabilidade e também a iniciativas importantíssimas como o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa que recentemente, na divulgação da carteira de 2009, demonstrou mais uma vez a sua seriedade e competência.

 

No entanto, devo concordar com Franklin que esta mudança que já começa a ocorrer em 2009 não é de todo ruim, uma vez que agora poderemos enxergar quem de fato leva sustentabilidade a sério. Eu particularmente,  meio a tantos relatórios de sustentabilidade, publicidades maravilhosas demonstrando o comportamento exemplar das empresas, ou mesmo as cifras respeitosas de investimentos na área ambiental, sempre fiquei com o pé atrás, apesar de procurar filtrar as criticas para não desestimular o empresariado. Acho sinceramente que já passamos da fase do estímulo e o que precisamos agora é resultado.

 

Ao final 2008 participei como membro do Conselho Consultivo de um projeto liderado pela SustainAbility, Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente que analisou os 10 melhores relatórios de sustentabilidade do Brasil. O relatório final, intitulado “Rumo à Credibilidade: Uma pesquisa de relatórios de sustentabilidade no Brasil”, evidenciou que apesar das empresas brasileiras saberem discorrer muito bem a respeito do desenvolvimento sustentável e reconhecerem a importância desse novo paradigma para o sucesso de seu negócio, praticamente nenhuma delas tem conseguido demonstrar de que forma a sustentabilidade configura o critério central para tomadas-de-decisão relativas ao negócio e esclarecer quais são os principais desafios para implementar estratégias dentro desse paradigma. Este resultado não nos faz pensar até que ponto estão de fato buscando implementar essas estratégias?

 

Enfim, 2009 começou e a hora é agora. Quem entendeu o significado da  sustentabilidade e o que é necessário para realizar a transição para este outro jeito de se fazer negócios novamente dispara na frente, enquanto que os que confundiram marketing, publicidade e filantropia com sustentabilidade, apesar dos ganhos até então, terão realmente que rever estratégias, redefinir rumos e redirecionar investimentos. Só espero que esta revisão acerte o foco desta vez. Pelo bem de todos.

 

Publicado no Terra Magazine