A hora é agora

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- outubro 10, 2013

Um dos sinais mais claros dos efeitos do aquecimento global pode, infelizmente, ser sentido com mais ênfase atualmente: o derretimento de geleiras por todo o mundo. O fenômeno atingiu marcas históricas no ano de 2006 e tende a se agravar com certa rapidez, segundo estudo divulgado pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente na semana passada.

O estudo indica que, entre 2004 e 2006, os glaciais em 30 montanhas espalhadas pelo mundo derreteram em um ritmo nunca visto: entre 2005 e 2006 a perda foi duas vezes superior às taxas verificadas entre 2004 e 2005. Em média, a perda de gelo nas montanhas foi equivalente à uma redução de 1,4 metro de água, enquanto que em 2005 a perda havia sido de apenas meio metro. Entre 1980 e 1999 a média de redução anual foi de apenas 0,3 metro, sendo que a perda total desde 1980 já chega a 10,5 metros. Estes dados são extremamente alarmantes, dado que a tendência é que o degelo aumente ainda mais.

Na Europa, algumas das geleiras mais famosas estão desaparecendo em um ritmo acelerado, como é o caso do glacial de Breidablikkbre na Noruega, que perdeu 3,1 metros em um ano; do glacial de Grosser Goldbergkees na Áustria, que perdeu 1,2 metro em 2006, ou ainda de Ossoue na França que teve 3 metros de redução. Além disso, o PNUMA alerta que, até 2030, a probabilidade de uma perda total de todos os glaciais latino-americanos é alta, o que poderia ocorrer na Bolívia, no Peru, na Colômbia e no Equador.

O derretimento das geleiras afetará milhões de pessoas diretamente, já que estas dependem destes reservatórios de água para beber, manter a agricultura, gerar energia e para utilização na indústria.

Outro estudo, elaborado por três cientistas de Taiwan e divulgado na Revista Science, relata que os impactos do derretimento das geleiras no aumento do nível do mar são na realidade muito mais drásticos do que o IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, calcula. Uma série histórica de dados obtida pelos cientistas revelou que, ao longo dos séculos 20 e 21, a humanidade

“seqüestrou” em 29.484 reservatórios 10.800 quilômetros cúbicos de água, o que bastou para reduzir o nível dos oceanos nesse período em 3 centímetros. Não fosse essa água retida, o nível do mar teria subido 2,46 milímetros por ano nos últimos 80 anos em vez do 1,7 milímetro anual observado desde o começo do século 20 e computado no Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado em 2007.

O fato é que estamos cada vez mais rapidamente tendo que lidar com as conseqüências do aquecimento global, mas não o fazemos de uma forma organizada e sistematizada. Os governos precisam urgentemente tomar conhecimento destas conseqüências e, como já venho salientando há algum tempo, elaborar políticas de adaptação que possam enfrentar os problemas que certamente serão vivenciados num curto espaço de tempo. É necessário que tenhamos políticas públicas capazes de antever os efeitos do aquecimento global e de articular os vários atores sociais relevantes para que conjuntamente possam implementar medidas a fim de minimizar os impactos já irreversíveis, tanto no nível do mar quanto na disponibilidade de água, por exemplo.

O mundo contemporâneo vai exigir das sociedades que medidas sejam elaboradas e implementadas num espaço temporal muito mais curto e urgente, sendo necessário dizer: esse momento já chegou.