A visita do presidente do Irã ao Brasil: onde estão os direitos humanos?

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- agosto 22, 2013

Em maio deste ano, o Presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, à convite do Presidente Lula, faria sua primeira visita oficial ao país. No entanto, poucos dias antes de sua chegada, sua viagem foi cancelada. Nenhuma razão foi oficialmente apresentada para tal cancelamento mas, na época, apurou-se o fato do acirramento político que antecedia as eleições no Irã: um novo candidato estava surgindo na disputa pela presidência, criticando toda a política de Almadinejad.

Dessa vez, nenhum imprevisto por parte da delegação iraniana impediu o desembarque do presidente no país, que ficou apenas um dia no Brasil, e se encontrou com Lula em Brasília. Essa visita é parte da estratégia da diplomacia brasileira em angariar apoio para a sua integração como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e liderar os esforços internacionais contra o programa nuclear iraniano.

Essa visita ocorre poucos dias depois do Presidente de Israel, Shimon Peres, vir ao país encontrar-se com o Lula numa agenda de estreitamento de laços econômicos e discussão sobre as negociações de paz entre israelenses e palestinos, tema este em que o Brasil historicamente desempenha um papel muito importante.

É impossível deixar de condenar com veemência esta visita oficial depois do pronunciamento do presidente do Irã na abertura da Conferência Mundial sobre o Racismo, ocorrida em Genebra, no dia 20 de abril deste ano. Naquela ocasião, Ahmadinejad pronunciou-se contra o governo de Israel, afirmando que se trata de um Estado criado depois do final da Segunda Guerra Mundial, em que os aliados recorreram à agressão militar para tirar as terras de uma nação inteira com o pretexto do sofrimento judeu. Segundo ele, “Enviaram imigrantes da Europa, dos Estados Unidos para estabelecer um governo racista na Palestina ocupada”.

O grave em tudo isso é que o presidente do Irã, em declarações anteriores, negou a existência do Holocausto praticado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, no qual mais de 6 milhões de judeus foram exterminados nas câmaras de gás dos campos de concentração, como Auschwitz, Bergun-belsen, Sachsenhausen, entre tantos outros.

Lula, orientado pelo Itamaraty, irá reiterar o direito do desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos. No entanto, a posição do presidente iraniano se mostra em direção totalmente oposta, uma vez que ele vem descumprindo todas as determinações da AIEA – Agência Internacional de Energia Atômica e do Conselho de Seguranças das Nações Unidas e continua com sua política de enriquecimento do urânio para fins militares.

Pessoalmente, convivi com muitas pessoas sobreviventes dos campos de concentração. No entanto, dado o tempo decorrido desse acontecimento, certamente, nos próximos anos, os registros da matança deixarão de contar com testemunhos pessoais, o que exige cada vez mais o repudio à manifestações, por mais absurdas que sejam, que procuram questionar os fatos ocorridos.

O repudio à presença do presidente do Irã é uma questão crucial no que tange ao respeito da dignidade humana e dos direitos humanos, uma vez que este presidente é acusado de fraudes na eleição, de apoiar o terrorismo, de manter um programa nuclear para fins militares, além de negar uma das maiores atrocidades já cometidas à humanidade . O regime nazista não foi marcado somente pelo extermínio dos judeus mas também pela perseguição e morte de ciganos, homossexuais, deficientes mentais, comunistas, socialistas. No caso dos judeus, a estratégia de extermínio se denominou “solução final”, sendo planejada de modo a exterminar todo um povo, incluindo crianças…

Textos publicados no Terra Magazine em 24/11/2009.