A volta do anti-semitismo na Europa?

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- novembro 28, 2013

Notícias recentes publicadas em vários jornais revelam o crescimento da extrema direita na Europa. Além disso, aponta-se também um aumento do anti-semitismo com especial ênfase na Hungria. Apenas para registro, meus avós paternos vieram de lá no período entre as duas guerras, fugindo exatamente de manifestações contra judeus por parte de estudantes.

 

Aliás, um filme referência denominado “Sunshine – O despertar de um século” (1999) relata a história de uma família judia na Hungria, perfeitamente inserida na sociedade, sendo formada por praticantes de esgrima, que tiveram uma participação destacada nas Olimpíadas como integrantes da delegação do país.

 

Existem muitas tentativas de explicação sobre o crescimento do anti-semitismo tal como a situação da economia húngara, mas de fato nada justifica a depredação de cemitérios, grafites nazistas, abuso verbal e até mesmo intimidação em jogos de futebol, como ocorrido com o presidente da Associação Raoul Wallenberg, Ferenc Orosz.

 

Apenas a título de informação, Raoul Wallenberg foi o diplomata sueco responsável por salvar milhares de judeus húngaros no final da 2ª Guerra Mundial e que, em razão desta sua atitude, dá hoje o nome da avenida onde se localiza a sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Desapareceu misteriosamente com a invasão russa, sendo que até hoje não se sabe os fatos relativos ao seu desaparecimento.

 

É importante dar atenção à volta do anti-semitismo pelo fato de que ainda que muitos possam considerar essas manifestações irrelevantes, elas merecem total repúdio por razões éticas e legais, mas, sobretudo, para se evitar espaço para o seu crescimento.

 

Sempre é bom lembrar que o holocausto que provocou a morte de 6 milhões de judeus ocorreu há pouco mais de 70 anos, ou seja, na geração de nossos pais e avós. Atingiu também ciganos, comunistas, homossexuais, sendo que o mesmo ocorreu simplesmente porque as pessoas, à época, não souberam dimensionar o perigo representado por uma extrema direita capaz de mobilizar os piores sentimentos da humanidade.

 

O que torna mais difícil de explicar a “industrialização da morte” é o fato de que a população da maior parte dos países onde ela foi praticada foi participante ativa em todo esse processo, sendo, desse modo, importante se manter uma postura sentinela.

 

Na França, os franceses se calaram e a polícia assumiu o papel de capturar os judeus do país e enviá-los para os campos. Poloneses, húngaros, ucranianos, muitos outros e, obviamente, os alemães não exerceram papel diferente. Todos os relatos demonstram que foram capazes de tomar para si requintes de crueldade contra seus vizinhos e colegas de classe, além de se apropriarem, sem qualquer prurido, de suas casas e bens. Exemplo disso é a recente descoberta de pinturas de valor inestimável na Alemanha, no que é considerada a maior descoberta, desde a 2ª Guerra Mundial, de arte confiscada pelos nazistas.

 

De tudo isso, uma coisa é líquida e certa: há que se combater o anti-semitismo em toda e qualquer modalidade e se partir sempre da premissa de que “engenhos do mal” como o holocausto podem voltar a ocorrer caso não estejamos aptos a combatê-los desde suas manifestações mais primárias.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 28 de novembro de 2013.