Afinal, quem é o “amigo da onça”?

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- setembro 26, 2013

Há poucos dias atrás, participei de uma reunião com os principais especialistas do país sobre a situação da onça-pintada (Panthera onca) no Brasil. Apenas a título de esclarecimento, ela é o felino mais importante do país.

 

De acordo com Peter Crawshaw Jr., um dos principais estudiosos do Brasil, “a onça-pintada é parte essencial em vários processos que ocorrem a nível ecossistêmico, uma vez que ela preda várias espécies de presas. Algumas destas, herbívoros, atuam como predadores ou dispersores de sementes de diferentes plantas, afetando a evolução e composição da floresta propriamente dita ao longo do tempo”. E vai além: “a falta de um predador de topo pode desestruturar os mais variados processos de manutenção de um ecossistema”.

 

O leitor certamente deve estar estranhando o teor desse artigo no Brasil Econômico: esses comentários, eventualmente, seriam mais adequados para publicação em revistas científicas ou de meio ambiente.

 

Entretanto, é bom que todos tomem conhecimento que a perda de um predador de topo pode, a médio prazo, representar um dano enorme a todo um bioma e, com isso, comprometer os serviços ambientais por ele prestados, com graves conseqüências às atividades econômicas.

 

Tentando traduzir esse risco, bastaria imaginar que em algumas décadas pudesse haver o desaparecimento de expressivos fragmentos florestais da Mata Atlântica e, com isso, se provocar uma mudança em termos de precipitação de chuvas, assoreamento de corpos d´água e, eventualmente, diminuição de fatores de polinização.

 

Exagero?

 

Não. Esses temas são objetos de estudo relativamente recentes e conceitos como serviços ecossistêmicos surgiram em nosso vocabulário praticamente no final da década de 90. Tudo isso para não falar do desafio ético de reconhecermos o valor intrínseco da biodiversidade e dos seres vivos.

 

A onça-pintada ocorre em quase todos os biomas brasileiros, com exceção do Pampa, e a estimativa é que sua população seja menor do que 10 mil indivíduos. De acordo com Ronaldo Morato, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros – CENAP/ICMBio, “nos últimos 27 anos houve uma perda de 30% desses animais e um declínio equivalente pode ser projetado para os próximos 27 anos”.

 

Na Mata Atlântica estima-se que o tamanho populacional seja de menos de 250 indivíduos. E o que é mais grave: uma avaliação recente de especialistas assinala que pode ter havido uma redução de 80% das onças neste bioma nos últimos quinze anos.

 

Este dado assustador nos obriga a refletir sobre a eficácia das políticas públicas brasileiras de conservação da biodiversidade: se de um lado mudamos de patamar de consciência sobre sua importância, de outro se evidencia um total fracasso nessas ações.

Se colocarmos essa discussão em um contexto global, há razão para ficarmos ainda mais preocupados pelo fato de que o Brasil é considerado um dos países líderes na conservação da biodiversidade do planeta.

 

No caso da Mata Atlântica, devemos lembrar que este é o único bioma brasileiro que tem uma legislação que o protege. Além disso, a mais conhecida ONG brasileira, Fundação SOS Mata Atlântica, foi constituída há mais de 25 anos atrás com o propósito de proteger o bioma. Mas a onça pintada demonstra que não se foi capaz, até aqui, de garantir o sucesso da conservação da Mata Atlântica.

Texto publicado no jornal Brasil Econômico em 26 de setembro de 2013.