Apenas chuvas de verão?

Artigos

- outubro 14, 2013

Esta semana pensamos em escrever sobre os recentes desastres naturais e a absoluta negligência com que a Defesa Civil foi tratada no Brasil, bem como a recuperação das áreas atingidas no ano passado.

Há uma razão simples para isso: revi muitos artigos escritos nos últimos anos, especialmente um publicado na revista Veja em 1988 no qual se discutia o mesmo assunto.

Enquanto os artigos são rigorosamente atuais, além de alta redundância, o que se vê é a dificuldade em mudar a cabeça das autoridades e da própria sociedade.

Uma das perguntas que sempre me fazem a respeito desses desastres é se são resultado da mudança do clima. Muitas vezes pessoas comentam: como pode estar em curso o aquecimento global se algumas partes do planeta vivem frios tão intensos?

Aliás, no ano passado, participei de um debate na TV e uma pessoa no estúdio disse não acreditar no tal do aquecimento global porque estávamos em pleno verão e a temperatura era de um dia normal de inverno.

As respostas a essas questões não são fáceis porque a ciência ainda não foi capaz de esclarecer muitas dúvidas sobre a mudança do clima.

E como parte da solução exige radicais mudanças no mundo em que vivemos, a partir da substituição dos fósseis por outras fontes de energia, a questão sai do campo da ciência e penetra no campo da política e do poder.

Imaginem um mundo em que teoricamente o combustível fóssil fosse abandonado. Do ponto de vista geopolítico, os países produtores de petróleo deixariam de ser foco da tensão política na escala atual e as empresas associadas a essa economia teriam que ser reinventadas.

Aliás, de alguns anos para cá, muitas dessas empresas passaram a se denominar “empresas de energia”. Mas o que interessa esclarecer é que estamos diante de questões complexas: há o conceito de variabilidade natural e de mudança global do clima.

Muitos fenômenos podem ser atribuídos à variação do clima, isto é, não dizem respeito, necessariamente, ao aumento da temperatura média do planeta em função da concentração de GEE.

Difícil de entender? Certamente não é uma questão trivial e a comunidade científica nem sempre oferece um consenso sobre o assunto.

Em 2010, uma onda de calor atingiu a região de Moscou, na Rússia, e as opiniões se dividiram. Cientistas do NOAA analisaram séries históricas desde 1880 e as condições atmosféricas daquele ano e atribuíram o fenômeno à variabilidade natural.

Por outro lado, cientistas do renomado Potsdam Institute for Climate Impact Research afirmaram que há 80% de probabilidade que o fenômeno não teria ocorrido não fora a mudança do clima.

Os estudos mencionados não são diretamente contraditórios, mas revelam a necessidade de que a ciência seja mais bem conhecida.

O aumento do conhecimento sobre tais questões é absolutamente estratégico, não apenas para poupar vidas e danos materiais, mas para o planejamento do país.

As decisões sobre a implantação de infraestrutura dependem das difíceis respostas dos cientistas, sendo que séries históricas não são mais guias definitivos para a tomada de decisão.

E a resposta passa pela implantação de modelos regionais de clima e pelo convencimento dos tomadores de decisão.

Nesse contexto, há que se convocar não apenas os governos, mas também o setor empresarial para que entendam o que está em jogo e, com isso, se deem melhores respostas à sociedade.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 23 de janeiro de 2012.