As convergências entre agricultura e biodiversidade

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- agosto 8, 2013

Na semana passada ocorreu uma importante reunião na Fapesp, coordenada pelo Professor Carlos Joly: uma consulta pública regional sobre o IPBES — Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas, envolvendo a América Latina e Caribe, um dos blocos regionais das Nações Unidas.

Apenas a título de lembrança, o IPBES seria o equivalente ao IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, voltado à biodiversidade.

É uma iniciativa da maior relevância pelo fato de que nessas últimas décadas faltou um esforço dessa envergadura com caráter institucional. Em 2005, as Nações Unidas realizaram a “Avaliação Ecossistêmica do Milênio”, o mais completo estudo sobre a biodiversidade global, cujas conclusões foram muito importantes e, de certa maneira, representam um ponto de partida para o IPBES.

Como assinalado na reunião, a ideia de se abrir o debate sobre o IPBES pode ser um elemento importante, marcando uma diferença com o IPCC, incorporando, desse modo, visões e demandas de atores que não estiveram presentes no passado.

Se a nova entidade for capaz de alcançar a importância que o IPCC possui hoje no tema da mudança do clima, certamente teremos mais chance de colocar a biodiversidade na agenda, valendo enfatizar que, nos últimos anos, o mundo tem perdido este patrimônio fundamental em virtude de desmatamentos, avanço de espécies invasoras e até mesmo pelo aumento da temperatura média do planeta em função do aquecimento global.

Biodiversidade é a expressão que contempla a vida no planeta, da qual todos nós dependemos para viver. O esforço mais recente refletido no IPBES é o de identificar com clareza os serviços ecossistêmicos: a polinização essencial para a agricultura, o papel das florestas como reguladoras do clima do planeta e estocagem de carbono, além de muitos outros. Todos eles são essenciais para a economia, mas até aqui não temos sido capazes de internalizá-los nas decisões dos governos e dos negócios.

O Tribunal de Contas da União, sob a liderança do Ministro Aroldo Cedraz, está organizando um evento internacional sobre solos em 2014, com o propósito de verificar quais ações o Brasil está realizando para proteger esse ativo.

A perda de solos férteis pode comprometer a produção de alimentos e a própria atividade agrícola. Os solos contêm toda uma riqueza em termos de microorganismos, cuja função tem sido estudada pela comunidade científica há muitos anos, mas que, infelizmente, ainda é de conhecimento restrito. Ou seja, pouco conhecida pela sociedade como um todo.

Além da importância dessas iniciativas, vejo a oportunidade de superarmos as divisões que marcaram o debate do Código Florestal e que ainda estão acesas: a agricultura brasileira certamente depende dos solos para ser sustentável.

O proprietário rural é o mais interessado na conservação da biodiversidade. Não seria o momento de procurarmos as convergências em torno de uma agenda comum?

Por fim, é importante registrar o falecimento de Bertha Becker, uma das maiores geógrafas brasileiras. Bertha foi uma das mais importantes vozes da academia no debate sobre a Amazônia, angariando respeito de pessoas com visões diferenciadas sobre as estratégias de desenvolvimento envolvendo a região.

Com seu carisma e seriedade, marcou uma geração importante. Todos sentirão sua falta nos debates sobre o destino do planeta.

Artigo publicado no Jornal Brasil Econômico em 18 de julho de 2013.