Bahia entre os séculos XIX e XXI

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- outubro 14, 2013

Como tem sido assinalado, nos últimos trinta anos a sociedade contemporânea se transformou radicalmente, de modo que temos dificuldades em usar “categorias” vigentes até trinta anos atrás para explicar esse mundo em transformação.

Até poucos anos, as categorias que utilizávamos como esquerda e direita, capitalismo e socialismo, serviam de guia para que pudéssemos nos inserir na realidade, em que pese o dogmatismo das mesmas.

Hoje, a realidade se apresenta mais complexa, o que, até certo ponto, é positivo. Como usar categorias antigas nestes novos contextos: a China é capitalista? O que permite adjetivar governos como de esquerda ou direita? Defender a descriminalização da droga indica uma postura liberal? Como enquadrar discussões de alta temperatura como o aborto e casamento gay?

Os tempos atuais exigem flexibilidade, uma vez que podemos ser liberais em alguns aspectos e conservadores em outros. Isto fica evidente em muitas discussões do noticiário brasileiro: quem imaginaria, há trinta anos, o PC do B defendendo mudanças conservadoras no debate do Código Florestal? O que é uma proposta inovadora e sintonizada com a visão de século XXI para o mundo e o Brasil?

Entendo que uma visão de século XXI passa pela ideia de uma transformação para sustentabilidade. Esta requer nova mentalidade capaz de colocar a perspectiva de longo prazo nos processos decisórios.

E isto em uma sociedade aprisionada pelo presente e curto prazo: acionistas e empresas preocupados com seus lucros e bonificações, governos com as próximas eleições e eleitores e consumidores em manter ou aumentar seu padrão de consumo.

As principais questões polêmicas do Brasil de hoje têm como pano de fundo a polarização entre uma visão de mundo do século XX versus século XXI: o país perdeu a capacidade de planejar, o que se constata pelos congestionamentos nas cidades e na ausência de transporte público eficiente, barato e não poluidor.

Na Bahia, encontramos claramente este conflito de visões: em uma das porções mais ricas de biodiversidade do planeta, com potencial de se implantar um modelo de economia criativa, inspirando-se na obra de Jorge Amado, o governo federal, estimulado pelo governo baiano, propõe um “desenvolvimento” com uma visão tipicamente do século XIX e XX.

Com a finalidade, precipuamente, de escoar minério de ferro de uma mina em Caetité com vida útil prevista de quinze anos, pretende-se construir uma ferrovia com destino final em Ilhéus e uma infraestrutura portuária que comprometem o turismo e a existência de algumas praias da região, ameaçadas pela sedimentação decorrente da implantação desse complexo.

Essas ameaças constam no processo de licenciamento perante o Ibama e foram debatidas em recente audiência pública.

Claramente, os defensores dessa proposta estão cegos pelo olhar do passado, abrindo mão da oportunidade de serem protagonistas de um desenvolvimento baseado nos ativos ambientais e culturais da região.

Caso a proposta vingue, perderão os baianos e os brasileiros de hoje e amanhã, que deixaram escapar pelas mãos a oportunidade de construir ali o século XXI.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 14 de novembro de 2011.