Com liderança é possível transformar: exemplo do Biota e do Professor Carlos Joly

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- agosto 23, 2013

As notícias sobre o planeta não têm sido boas. Como temos escrito, o aquecimento global está em curso numa velocidade muito maior do que se imaginou, de modo que o foco cada vez mais se concentra no que o jargão climático denomina adaptação, ou seja, como vamos nos preparar para a elevação do nível no mar no Rio de Janeiro, Santos, como enfrentar chuvas intensas em São Paulo no período do verão. A esse respeito participei de um seminário importante sob a liderança do cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE Carlos Nobre, cujo título era “International Expert Panel on Megacities, Vulnerability and Global Climate Change”. O seminário teve como objetivo identificar as vulnerabilidades às mudanças climáticas nas regiões metropolitanas de São Paulo.

Se de um lado há muita razão para nos sentirmos na roda gigante lá embaixo, existem iniciativas no Brasil que merecem destaque. Particularmente quero me referir a um programa denominado Biota, da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo que foi criado para identificar, mapear e investigar as características da fauna, da flora e dos microrganismos do Estado de São Paulo.

O mesmo surgiu há exatamente dez anos sob a liderança de um professor universitário da Unicamp, Carlos Alfredo Joly. Conheço Joly há muitos anos, sendo que durante todo o processo da Assembléia Nacional Constituinte contei com seu apoio voluntário na elaboração do texto constitucional, o que gerou à época para ele muitos questionamentos dentro da universidade, pois no Brasil engajamento em atividades políticas de caráter voluntário geram desconfiança: quais seriam os interesses escondidos por de trás de sua participação na Constituinte? Haveria uma “agenda oculta”?

Anos mais tarde trabalhamos juntos na Secretaria Estadual de Meio Ambiente, quando foi criado o Programa Estadual de Biodiversidade – ProBio, com o objetivo de mapear e definir estratégias de conservação biológica no território de São Paulo, através da articulação dos vários atores sociais. Em outras palavras, ainda sob o calor da Eco 92, a idéia era implementar a Convenção da Biodiversidade, mas entendendo que isso só seria possível através de uma abordagem inovadora, convocando as diversas pastas dentro do governo estadual, a sociedade civil e o setor empresarial.

O objetivo maior do ProBio era demonstrar que a biodiversidade é essencial para a economia, sendo que a sua manutenção é o passaporte para a sustentabilidade da produção agrícola, identificação de novas espécies importantes para novos alimentos, remédios, enfim, a compreensão de que a riqueza da vida é essencial e faz parte da mudança cultural da Humanidade neste momento.

A verdade é que o Professor Joly resolveu sair da coordenação do ProBio, em função das limitações burocráticas e políticas de atuação dentro do governo, e resolveu voltar à universidade com o objetivo de exercer uma liderança no campo de conhecimento da biodiversidade, criando o Biota. Este é de fato um cartão de visitas da sociedade brasileira pelos resultados obtidos em termos de formação de massa crítica e conhecimento dos ecossistemas, espécies e processos ecológicos essenciais que ocorrem no Estado de São Paulo, transformando-se num modelo com replicabilidade em vários outros estados do Brasil.

O programa, que completou dez anos de atividades no mês passado, já contribuiu para a formação de 169 mestres, 108 doutores e 79 pós doutores, além do envolvimento de cerca de 170 alunos de iniciação científica, contribuindo para o avanço do conhecimento biológico paulista.

É importante ressaltar que esse conhecimento também tem se traduzido em políticas públicas, na forma de resoluções, decretos e leis, à exemplo do Decreto número 53.939, de 6 de janeiro de 2009, que dispõe sobre a manutenção, recomposição, condução da regeneração natural, compensação e composição da área de Reserva Legal de imóveis rurais no Estado de são Paulo.

Após esses dez anos de Programa ainda existem diversos campos nos quais o conhecimento pode ser aprofundado, como por exemplo entender o funcionamento de ecossistemas como o cerrado e Mata Atlântica, o que seria de extrema importância para que se pudesse projetar as conseqüências que as mudanças climáticas podem provocar e já estão provocando em cada um deles.

A verdade é que quando há liderança com visão de futuro é possível se agregar valor dentro e fora das instituições, contribuindo com o desenvolvimento sustentável. É o exemplo do Biota e do Professor Joly