Congresso Mundial da Água

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- outubro 10, 2013

Há poucos dias houve uma importante reunião do Conselho Mundial da Água, em Marselha, na França.

O Brasil teve um protagonismo exemplar, liderado pela Agência Nacional de Águas (ANA), com uma delegação expressiva e com a inegável liderança de Vicente Andrew. O evento foi presidido pelo brasileiro Benedito Braga, ex-diretor daquela agência.

Como assinalou um dos líderes da delegação brasileira, Bruno Pagnoccheschi, o século XXI exigirá uma nova visão estratégica para a conservação da água doce no planeta.

Um balanço dos últimos vinte anos, a partir da Rio 92, certamente indicará que dois principais itens ganharam peso na agenda da sustentabilidade: mudança do clima e água.

Há que se assinalar, inclusive, que um dos principais impactos do aquecimento global se dá no ciclo hidrológico, conforme os estudos científicos têm confirmado.

Isto vai afetar dramaticamente as nossas vidas, a começar pelo aumento dos desastres naturais, decorrentes de enchentes e grandes secas, com graves consequências econômicas e sociais.

Este aspecto foi bastante debatido, valendo lembrar que, na reunião que antecedeu a Rio 92, em Dublin, praticamente não se tinha noção desta associação entre aquecimento global e recursos hídricos.

Aliás, foi nesta reunião que a “comunidade da água” firmou os princípios que estão presentes no capítulo 18 da Agenda 21, que têm ancorado as estratégias mundiais sobre esse tema.

No Brasil, tais reflexos estão presentes na Política Nacional de Recursos Hídricos e na própria criação da ANA.

Como tem sido registrado em alguns artigos recentes, teremos que nos adaptar aos limites do planeta, entre os quais certamente está a disponibilidade de água doce.

Num paradigmático artigo recentemente publicado na revista Nature, uma equipe de cientistas liderados por Johan Rockström apontou nove limites planetários: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, ozônio estratosférico, ciclos globais de Fósforo e Nitrogênio, aerossol atmosférico, mudanças no uso do solo, perda na biodiversidade, poluição química e o consumo de água doce.

O artigo é paradigmático pela tentativa de estabelecer uma metodologia de mensuração, ainda que evidencie as dificuldades científicas para tanto.

Ele sinaliza a necessidade de que a comunidade internacional, os países, as empresas, as cidades, enfim, a sociedade contemporânea, incorpore essa nova visão de mundo nos processos de tomada de decisão. E o que é fundamental: com senso de urgência nesse processo de transformação de “visão de mundo”.

O Brasil tem uma possibilidade inacreditável de liderança nessa questão: portador da maior bacia hidrográfica do planeta, alto grau de institucionalidade em termos de marco regulatório e presença de entidades públicas e da sociedade civil voltadas para o assunto.

Mas, por outro lado, apresenta um grande déficit em termos de coleta e tratamento de esgoto, bem como uma equivocada ideia de abundância infinita de água.

Ainda que a região Norte seja extremamente privilegiada, isto não se repete em outras regiões do país, a exemplo do cenário de escassez na região Sudeste…

Como disse Vicente Andrew, atual presidente da ANA, uma delegação de mais de 200 pessoas indica que estamos no caminho certo, embora tenhamos uma desafiadora lição de casa.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 5 de abril de 2012.