Curto-circuito nas negociações climáticas

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- setembro 30, 2013

2013 não traz no seu calendário nada esperançoso em termos de decisão sobre clima ou qualquer questão sobre o futuro do planeta. No mesmo período do ano passado, estávamos todos cheios de expectativas pela realização da Rio+20 e pelas COPs de Doha (Clima) e Islamabad (Biodiversidade).

Estes três eventos traziam a possibilidade de tomada de decisões importantes que acabaram não se realizando. Diante desse cenário desanimador, a pergunta que se coloca é: o que fazer?

Do ponto de vista do aquecimento global, o furacão Sandy foi visto por alguns como o “Pearl Harbor” americano, o fato decisivo que iria reposicionar os EUA nesta discussão. Mas isto não aconteceu, assim como não aconteceu em 2005 após o Katrina.

A discussão sobre aquecimento global, no mundo e no Brasil, tem perdido um pouco da sua racionalidade. A ciência aponta, majoritariamente, a existência e gravidade do fenômeno.

Entretanto, as discussões, na opinião pública, estão ancoradas mais nas visões de mundo e valores dos debatedores do que nas evidências científicas. Não se trata de uma questão de fé – acreditar ou não acreditar – mas curvar-se à gravidade da questão e à necessidade imperiosa de seu enfrentamento.

A COP 18 de Doha, com seu resultado ridículo, nos obriga a pensar sobre a continuidade das negociações neste formato. As delegações dos países negociam “firulas” sem grandes consequências por estarem despidas de mandato para efetivamente tomar as decisões essenciais.

Em Cancun, muitos como eu acreditavam que após o fracasso de Copenhague seria fundamental manter o curso das negociações. E não interrompê-las. Hoje tenho muitas dúvidas se não seria melhor interrompê-las, com a finalidade de colocar claramente, para a opinião pública, que estamos afundando como o Titanic.

As COPs parecem mais “simulações” que se realizam em matérias de negociação em cursos de graduação. Seria necessário provocar um curto circuito nas negociações.

Nenhum governante está disposto a empunhar está bandeira. Eventualmente, Obama, em seu segundo mandato, e a China, sob nova direção, possam avançar em um pacto bilateral capaz de trazer algum alento.

Enquanto isso, presenciamos: 1) o Ártico derreter mais rápido do que se previa; 2) os eventos climáticos tornarem-se mais extremos; 3) a produção de alimentos cair; 4) o nível do mar aumentar mais rápido do que o esperado; 5) as emissões de gases efeito estufa aumentarem; e 6) as ondas de calor se tornarem um grande problema.

Tais constatações estão presentes em matéria da revista New Scientist – Climate Change (17/11/2012). Enfim, todos que acreditam que é possível mudar, ainda que a realidade não evidencie tais mudanças, vale lembrar que não existe linearidade na política.
2013 poderá trazer boas notícias. Oxalá!

Artigo publicado no Brasil Econômico em 27 de dezembro de 2012.