DIRETAS JÁ PELA AMAZÔNIA

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- outubro 10, 2013

Ainda que haja o risco de repetir o que já escrevemos nessa coluna é impossível deixar de comentar os dados do desmatamento da Amazônia. Em entrevista coletiva e reunião com o Presidente da República as autoridades ambientais brasileiras reconheceram a gravidade do problema e de certo modo o descontrole do poder público em relação ao avanço sobre a floresta. Medidas emergenciais foram anunciadas, mas a impressão é que se colocou o cadeado depois da porta arrombada…

É necessário se aproveitar o impacto nacional e internacional na direção de um pacto da sociedade brasileira pela Amazônia, a envolver o poder público, o setor empresarial, a sociedade civil organizada, comunidade científica e a mídia, ou seja, todos em diferentes proporções possuem responsabilidade pela solução definitiva do problema, a começar pelo poder público.

A Amazônia, ou melhor, o que está acontecendo nela, demonstra o que há de pior no Brasil: ausência do Estado de Direito em todos os sentidos a começar pelo assassinato de líderes como Dorothy Stang e Chico Mendes; grilagem de terras públicas; desrespeito à legislação florestal; fragilidade do poder público na aplicação da lei e omissão no que tange à alocação de recursos para as entidades governamentais. Ainda que não haja nada de novo em relação a esse quadro era de se esperar que o aumento da consciência ambiental nos últimos anos pudesse melhorar a situação descrita, mas o que vemos é um quadro desanimador em função da escala da destruição.

Na última eleição presidencial coordenei a elaboração de uma plataforma mínima ambiental para os candidatos à presidência da república, tendo o resultado sido desanimador pelo desinteresse demonstrado pela maioria deles. Por outro lado, a sociedade civil organizada tinha consciência de que em relação à Amazônia seria necessário um “freio de arrumação”, isto é, um conjunto de ações firmes e permanentes que pudessem articular um pacto no sentido de contenção da expansão da fronteira agrícola de um lado, e simultaneamente aumentar a produtividade nas áreas alteradas, buscando um modelo de desenvolvimento regional sustentável. A comercialização de commodities estaria vinculada à certificação, de modo que o mercado faria sua parte, a exemplo da compra de carne bovina pelas grandes redes de supermercado feitas com a garantia de que a pecuária não seria um vetor de destruição dos ecossistemas naturais.

Diante do quadro de desmatamento estou convencido de que teremos que promover uma enorme mobilização da opinião pública brasileira na direção desse pacto e pessoalmente acredito que o caminho deverá ser de mobilização através de passeatas que possam reunir milhares de pessoas em todas as principais cidades brasileiras. O que está em jogo é o legado da nossa geração, uma vez que a destruição da Amazônia é irreversível e não pode continuar. Temos que iniciar um movimento nos moldes das ‘Diretas Já’ demonstrando a todos aqueles que têm alguma responsabilidade pelo problema e, o mais importante, pela sua solução, que não queremos que continue a omissão criminosa que perdura há pelo menos duas décadas, como comprovam os relatórios do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Somente quando reunirmos essa massa crítica poderemos ter a certeza de que a barbárie irá acabar.

Publicado no Terra Magazine em 29/01/2008