Em defesa do IPCC e de Pachauri

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- agosto 21, 2013

Impossível essa semana deixar de comentar os ataques ao IPCC. Editoriais em vários jornais brasileiros e internacionais solicitando a renúncia de seu presidente, Rajendra Pachauri, e a implantação de um novo modelo institucional.

Serei breve: o presidente do IPCC tem credenciais para permanecer no cargo e posso afirmar com liberdade pelo fato de que acompanho a entidade há muitos anos e Pachauri tem conduzido com propriedade as discussões em curso, aceitando as críticas relevantes que tem sido feitas, quer na inobservância de rigor científico no que tange aos glaciais do Himalaia, quer na discussão dos e-mails de East Anglia.

Não há como negar que os equívocos ocorreram e que merecem toda atenção do IPCC. Em outras palavras, é inadmissível que no 5º Relatório possam se verificar problemas semelhantes, de modo que o próprio IPCC terá que rever seus procedimentos com o objetivo de manter seu principal ativo, a credibilidade institucional e o inegável serviço que presta à questão da mudança do clima, ao “sumariar” o estado da arte da comunidade científica sobre este assunto tão crucial.

Por outro lado, há que se repelir a má fé dos interesses afetados pelas demandas que a mudança do clima traz em termos de novos paradigmas sociais e tecnológicos, notadamente no campo de energia, requerendo a substituição dos combustíveis fósseis e novos padrões de produção e consumo. Em outras palavras, desqualificar o IPCC de maneira grosseira é absolutamente inaceitável e só pode ser encarado como munição por parte dos interesses que se recusam a participar de um debate público sério, que envolve hoje praticamente todos os países e seus relevantes atores sociais.

Na minha opinião, há uma ingenuidade daqueles que acreditam que essa desqualificação do IPCC poderá significar a negação do aquecimento global e de seus conseqüências. Ele está presente no derretimento das geleiras do Ártico, aumento estatístico de desastres naturais…

Afora essa crítica grosseira, tenho visto muita gente séria pedir a desvinculação entre o IPCC e os governos, entendendo que, com isso, o mesmo teria mais liberdade de ação e maior autonomia no que tange aos seus relatórios.

Sou de opinião absolutamente contrária, pois entendo que a exigência de discussão e engajamento dos governos no IPCC é o que lhe dá o diferencial em relação a qualquer outra instituição com objetivos semelhantes. Se os governos não tivessem envolvidos no IPCC, seus trabalhos seriam “mais um” no oceano de milhares de estudos científicos sobre a mudança do clima nos seus vários aspectos, ao passo que, no caso do IPCC, cria-se uma obrigação moral de se levar em consideração suas recomendações, além de que, do ponto de vista da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, o IPCC tem papel claro de órgão de apoio científico naquele tratado internacional.

Lamento profundamente que durante o período preparatório da Rio 92 não tenhamos criado uma instituição do porte do IPCC para o tema da biodiversidade, pois isto teria significado grandes avanços no que tange a conservação da vida no planeta. O ex-secretário geral da ONU Kofi Annan percebeu essa lacuna, ao criar a “Avaliação do Milênio” no ano 2000, mas essa iniciativa está despida da institucionalidade necessária, presente no IPCC.

Enfim, o debate nessa altura dos acontecimentos é fundamental para que possamos aprimorar a governança global sobre temas tão relevantes e, no que tange a mudança do clima, para que possamos continuar lutando para que os nossos governantes entendam que o tempo de ação é o recurso mais importante no combate ao aquecimento global.

Publicado no Terra Magazine em 22/02/2010