Empresas pelo Clima: o aguaceiro de São Paulo passa pelas empresa

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- agosto 21, 2013

É impossível deixar de comentar as chuvas em São Paulo. Na minha vida, 54 anos, não lembro de um aguaceiro parecido. E realmente a cidade e a região metropolitana não estão preparadas para enfrentar tal situação. Os noticiários televisivos mostram a tragédia das famílias que perdem tudo num piscar de olhos. Mais uma vez sou obrigado a repetir a imprevidência na ocupação de áreas próximas aos rios, sem respeito à declividade dos terrenos, enfim, uma irresponsabilidade do poder público pela omissão na obrigação de fiscalizar, pelo fornecimento de infra-estrutura nessas áreas e dos próprios moradores, na maior parte das vezes, estimulados pelos “loteadores clandestinos” e políticos populistas e demagogos…

Tenho respondido à muitas indagações sobre a influência do aquecimento global nesse aguaceiro, sendo que normalmente os repórteres se referem aos céticos, isto é, aqueles que ostensivamente não acreditam na mudança do clima global. Tudo não passaria de mais um ciclo da natureza como teria ocorrido em épocas passadas.

A minha resposta é sempre a mesma: se não é possível afirmar com absoluta certeza que os fenômenos são causados pelo aquecimento global, igualmente não é possível dizer que o mesmo não tem influência nessas chuvas tão intensas em São Paulo e em algumas outras regiões do país. O problema é que fatores locais e regionais exercem um papel importante no agravamento dessas chuvas, como a impermeabilização de áreas grandes da cidade, a supressão de porções de vegetação, que geram as chamadas ilhas de calor – áreas muito mais quentes do que aquelas nas quais existe vegetação, como explicitado em uma matéria na última quinta feira (28/01) da Folha de São Paulo, “Fatores locais e globais inflam chuva em SP”.

Sempre é bom lembrar que a Serra da Cantareira exerce um enorme papel no micro-clima de São Paulo, e a sua constante diminuição através da ocupação de suas bordas, pode gerar um efeito catastrófico nas chuvas futuras. Desde a década de 80 se discute o aumento da proteção da Cantareira além do Parque Estadual lá existente, tramitando há anos no Condephaat um pedido de tombamento na área não protegida. Quem sabe as recentes tragédias convençam o governo de São Paulo a agir nesse caso.

A palavra está com José Serra…

Em relação ao aquecimento global, nem tudo é negativo.

Quero me referir a um projeto do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces) denominado Empresas pelo Clima. Trata o mesmo de estimular o posicionamento do setor empresarial acerca do marco regulatório no Brasil para a economia de baixo carbono, através de uma estratégia ousada de envolvimento de presidentes de empresas e apoio a estratégias, políticas, bem como sistemas de gestão das emissões de gases efeito estufa. Esta plataforma brasileira de empresas está efetivamente contribuindo para a promoção e construção de uma economia de baixo carbono no país e para o equilíbrio climático.

Na semana que segue participarei de um Programa de Capacitação de empresas cuja finalidade é reunir as empresas participantes desta iniciativa do GVces, e prepará-las para que possam efetivamente definir políticas corporativas de clima, que inclui compromissos de redução de gases efeito estufa, fortalecimento das lideranças responsáveis por tais assuntos dentro das organizações, estratégias para enfrentar as novas legislações brasileiras a esse respeito, bem como estimular seus participantes a utilizarem a sua “imaginação competitiva”.

Quer dizer nas palavras de Rachel Biderman que as empresas devem encarar o tema do clima numa perspectiva bastante ampla, entendendo que estamos num mundo marcado pelo aquecimento global, de modo que instalações fabris, escritórios, enfim, os ativos da empresa podem estar ameaçados pelos impactos dos eventos climáticos extremos. Rachel acabou de voltar de Harvard, e está absolutamente convencida que o Brasil detém uma condição única de inovar em soluções climáticas.

Artigo publicado no Terra Magazine em 01/02/2010.

Lembrou Juarez Campos, o ocorrido com uma grande montadora que perdeu muitos automóveis no ano passado em função de seu alagamento. Para ele, os desastres naturais em curso no Brasil não podem ser desperdiçados, pelo simples fato de que trazem uma oportunidade única de tomada de consciência. A médio prazo, diz ele, a sociedade como um todo muda de patamar de conhecimento sobre o assunto e as empresas devem vislumbrar nesse processo um enorme repertório de oportunidade. Fernando Monteiro e Dalberto Adulis, da ABDL – Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Liderança, acreditam que o déficit de massa crítica nas empresas brasileiras nas questões climáticas será rapidamente suprido em função das demandas da sociedade, que cada vez mais pressionam os governos e as empresas, exigindo, dos primeiros, mais regulação e das empresas maiores esforços.

 

Mas a questão vai além, porque o consumidor tenderá a exigir compromissos efetivos das empresas na aquisição de seus bens e serviços, o que não se confunde, na opinião de Luiz Pires, com mera publicidade. Assim sendo, se até aqui muitas iniciativas empresariais foram valorizadas pelo seu pioneirismo, ainda que no campo simbólico, caso as mesmas não sejam permanentes, correm as empresas o risco de serem acusadas de “green washing”, isto é, maquiagem ambiental. Ou seja, para Luiz, é fundamental inserir tais iniciativas dentro de um contexto mais amplo, o que blinda a empresa de questionamentos que podem comprometer a sua reputação.

 

Enfim, na medida em que as empresas assumem o compromisso de colocar na sua agenda a mudança do clima, certamente há razão para otimismo. Segundo Thaís Corral, uma das maiores especialistas em liderança no Brasil, é fundamental compreender que as transformações dependem de pessoas e as corporações são formadas por gente. Iniciativas como Empresas pelo Clima devem contemplar essa dimensão da liderança, sendo que programas de capacitação não se constituem meramente em fornecer técnicas, metodologias, enfim, aparato estilo “hardware”. Devem partir da premissa que os líderes surgem quando se estimula a identificação de motivação interna das pessoas, que ao incorporarem em seus projetos existenciais as transformações da sociedade são dotadas de um grande poder que extravasa o papel formal dentro de suas organizações.

 

Adriana Villela, Daniel Simon e Lígia Ramos, os mais jovens na equipe da organização do Empresas pelo Clima comentaram que a sua geração está efetivamente comprometida com esses temas. Poder fazer alguma coisa faz parte da sua escolha profissional.

 

Temos ou não temos razão de sermos otimistas?

 

 

Texto publicado no Terra Magazine – 01/02/2010