Falta ousadia no Itamaraty

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- outubro 7, 2013

Assistimos, impotentes, a matança na Síria, esperando que o Brasil venha a se posicionar neste assunto tão dramático. Mas o Itamaraty adota uma posição difícil de compreender, repetindo um pouco o que aconteceu na Líbia.

Fico imaginando como gente da minha geração, que tem poder de influência, se sente ao lembrar a importância que a política de direitos humanos nos Estados Unidos, na época de Jimmy Carter, teve no Brasil.

Quando da sua visita em 1978, o governo brasileiro se viu terrivelmente constrangido com as indagações do ex-presidente e de sua mulher sobre presos políticos e o respeito aos direitos humanos.

Na Síria, o papel intransigente da Rússia ampara as atrocidades do presidente Bashar al-Assad contra a população local, valendo lembrar que os rebeldes também estão cometendo crimes de guerra contra prisioneiros.

A cada dia a violência aumenta e alguma esperança surge com a nomeação do substituto de Kofi Annan, o diplomata argelino Lakhdar Brahimi, cuja missão impossível é a de encontrar uma solução negociada para o conflito.

Mas uma coisa é certa: o presidente sírio terá necessariamente que sair e uma transição tem de ser negociada, com o objetivo de se evitar eventuais barbáries que possam ser praticadas pelos vencedores.

Na Rússia de Vladimir Putin, a condenação de três jovens do grupo punk Pussy Riot revela a distância que o país ainda possui de uma democracia plena.

Elas foram acusadas de vandalismo por terem cantado uma “oração” em protesto contra o presidente na catedral de Cristo Salvador, em Moscou.

As jovens foram condenadas a dois anos de prisão. A repercussão da condenação se deu no mundo inteiro, sinalizando que a consciência relativa aos direitos humanos continua viva.

E mesmo que Vladimir Putin procure demonstrar indiferença à condenação internacional, certamente, onde quer que ele vá, vozes de protesto irão constrangê-lo.Afinal, o seu comportamento e o das autoridades russas no episódio são ridículos e injustificáveis.

Gente da minha geração lutou pela democracia e respeito aos direitos humanos. E tem como obrigação fazer com que aqueles que não viveram a ditadura no Brasil incorporem tais valores e, mais do que qualquer coisa, compreendam que se trata de uma luta permanente em qualquer lugar do planeta.

Afinal, faz pouco mais de duas gerações que o regime nazista exterminou, com metodologia industrial, judeus, ciganos, homossexuais e adversários com o consentimento silencioso daqueles que se calaram.

Mais recentemente, o mundo presenciou outros genocídios a exemplo dos que aconteceram em Ruanda, Sudão, Bálcãs, sem que as Nações Unidas tivessem capacidade de efetivamente preveni-los.

Caso a nossa diplomacia tivesse atuação mais firme na defesa dos direitos humanos e na formulação de políticas que permitissem às Nações Unidas maior capacidade de intervenção, estaríamos mais preparados para a aspiração de integrarmos o Conselho de

Segurança daquela instituição, como membro permanente. Para tanto, falta ousadia para defender uma visão de mundo na qual os direitos humanos sejam colocados como um dos pilares essenciais nas relações da comunidade internacional.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 23 de agosto de 2012.