Greenpeace: um exemplo de sucesso.

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- agosto 29, 2013

Estou vindo de uma viagem para a China, numa reunião anual do Greenpeace. A escolha da China para esse encontro é simbólica: hoje há pouca dúvida de que o país é o maior emissor de gases efeito estufa do planeta, superando os Estados Unidos, de modo que o sucesso da reunião de Copenhagen depende em parte dos chineses, que relutam em reduzir suas emissões, alegando basicamente que se levarmos em consideração o per capita, as emissões na China são baixas, já que esta última emite cerca de 5 ton CO2/cap em comparação com os Estados Unidos que emite 20 ton CO2/cap.

O Greenpeace certamente é hoje a entidade ambientalista mais carismática do planeta, pelas suas ações mediáticas que simbolizam as práticas de ação direta e chamam a atenção de milhões de pessoas para os problemas ambientais do planeta. Basicamente nos dias de hoje seu tema prioritário é o combate ao aquecimento global, sem abrir mão de outras campanhas, a exemplo da preservação das baleias, sendo que dois de seus ativistas encontram-se presos no Japão, como escrevi nesta coluna em 18 de dezembro de 2008.

A entidade, que vem fazendo campanhas contra a degradação do meio ambiente desde 1971 quando um pequeno barco, com voluntários e jornalistas a bordo, navegaram por Amchitka no Alaska, para impedir o governo americano de fazer testes nucleares, está hoje presente em 41 países e conta com 2,8 milhões de colaboradores, o equivalente a 35 estádios do Morumbi lotados ou 3,8 vezes os habitantes da cidade de Amsterdã, tendo recebido em 2007 cerca de 212, 316 milhões de euros. Desde então, esta tem como objetivo denunciar crimes ambientais e desafiar governos e empresas a preservar o meio ambiente e promover a paz por meio de um debate aberto sobre as escolhas da sociedade.

Neste artigo pretendo colocar para os leitores quais são os desafios desta ongue, a começar pela própria gestão da entidade, compatibilizando culturas organizacionais de 41 países, que se articulam em torno dos objetivos acima mencionados e que dependem basicamente de contribuições dos filiados, uma vez que a entidade não recebe recursos governamentais ou de empresas. Ou seja, mais do que qualquer outra entidade não governamental a sobrevivência do Greenpeace está diretamente ligada ao reconhecimento de seus filiados de que ela efetivamente cumpre a sua missão institucional. Se em algum momento houver um questionamento sobre a efetividade de suas ações, existe o risco de diminuição de suas fontes financeiras.

No Brasil, o Greenpeace está presente desde 1992 e extrapola seus objetivos e projetos de âmbito internacional, participando ativamente das questões da Amazônia e reunindo, em 2007, cerca de 34.652 colaboradores e uma receita de 12.540 milhões de reais.

Por sua vez, na China a entidade enfrenta um país em fase de transformação, valendo lembrar que a sociedade civil daquele país se encontra em um estágio absolutamente incipiente com o governo exercendo uma enorme vigilância e sem tradição de respeito aos direitos básicos de uma democracia, o que exige que a sua atuação seja realizada com extrema sensibilidade e cuidado. Pode-se afirmar que o Greenpeace atua neste país solitariamente de modo diferente da atuação em países com tradição de uma sociedade civil forte, como é o caso do Brasil.

O Greenpeace passa por um momento de transformação, em busca de um modelo que lhe permita atuar com efetividade, isto é, atendendo a demanda que a sociedade no mundo inteiro exige em termos de sua presença nas principais questões, assim como compreendendo que o aquecimento global exige medidas radicais em um espaço de tempo menor que uma década. Quer dizer que não se trata apenas de apontar o problema, mas encontrar um repertório de ações que vão desde a substituição dos combustíveis fósseis por energia renovável, passando pela exigência do chamado “desmatamento zero”, com o objetivo de preservar a biodiversidade das florestas e evitar simultaneamente a emissão de gases efeito estufa.

Não há como deixar de reconhecer que a missão da entidade é extremamente ambiciosa, o que faz com que especialmente os jovens estabeleçam uma enorme identificação com suas ações e se disponham a trabalhar voluntariamente. De certo modo, podemos dizer que a ongue captura no imaginário da sociedade contemporânea o espírito de luta e a vontade de transformação, representando a esperança de mudança notadamente em um período de crise tão aguda como a atual.

Essa necessidade de transformação está coincidindo com a escolha de um novo diretor executivo do Greenpeace Internacional, que deve atender uma série de requisitos pessoais e profissionais para representar uma entidade desse prestigio em fóruns internacionais, bem como liderar as mudanças internas que o momento exige.

Tendo a oportunidade de participar desse processo pretendo na semana que vem levantar alguns pontos interessantes sobre o processo de seleção deste profissional, com a finalidade de demonstrar que o mundo contemporâneo traz uma série de novas exigências profissionais. Como tenho filhos e normalmente amigos conversam sobre o “preparo” de seus filhos para os desafios do futuro creio que é possível indicar alguns requisitos básicos para inserção no mercado de trabalho, bem como para atender a certos requisitos de satisfação pessoal e existencial. Em outras palavras, hoje a distinção entre realização pessoal e profissional não são esferas independentes, estando aí uma das importantes mudanças deste novo mundo em construção.

Artigo Publicado no Terra Magazine.