Mudanças à vista

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- fevereiro 27, 2014

Estamos às vésperas do carnaval e, do ponto de vista psicológico, o ano começa a partir daí. Especialmente com a Copa do Mundo, teremos um ano curto. Além disso, também teremos eleições, que sempre trazem um suspense em relação ao que vai acontecer: reeleição da Presidente Dilma no primeiro turno? Dois turnos com possibilidade de vitória da oposição?

 

O importante é saber que existe no ar um clima de inquietação, que sugere mudanças no Brasil, desde melhorias na saúde até demandas por diminuição da violência. No período de crise econômica, se dizia que a falta de oportunidades gerava maior criminalidade, mas em um país em pleno emprego esta tese não se sustenta.

 

Lembro-me que na minha infância meus pais, de formação liberal, acreditavam que a nossa sociedade era menos violenta do que a norte-americana. Esse mito se desfez como muitos outros.

 

A minha geração está em permanente crise pelo fato de que não foi capaz de formatar um Brasil mais justo e menos desigual. O combate à desigualdade tem se dado, única e exclusivamente, pela possibilidade de se assegurar às faixas mais carentes acesso ao consumo. Tenho visto que é mais importante o carro do ano do que educação de qualidade. Desde que se aumentem os padrões de consumo, todos concordam porque as empresas vendem mais, os governos arrecadam e, aparentemente, todos estão tomados por essa euforia consumista.

 

Questionar esse modelo torna-se uma tarefa inglória não apenas no Brasil, mas em todos os países em que está se formando essa imensa classe média, composta por bilhões de novos consumidores.

 

Dizer apenas que o consumo material não é suficiente para tornar as pessoas mais felizes tem pouca ou nenhuma relevância. Desde a década de 60, a sociedade de consumo é questionada e os movimentos de contra-cultura dão a impressão de que não passam de nostalgia presente tão somente em filmes que retratam a efervescência daquela década.

 

Porém, é preciso lembrar sempre que vivemos em uma sociedade extremamente complexa, na qual as mudanças não seguem trajetórias lineares, de modo que não há porque não acreditarmos que é possível assistirmos transformações nas próximas décadas. Estas se perfazendo em uma visão de mundo que comporte novos valores, que contemplem a busca de satisfação individual e coletiva, além da dimensão material.

 

Voltando ao ocorrido na minha geração, lembro de muitos exemplos que indicam radical mudança de valores. Nas décadas de 50 e 60, o cigarro representava simbolicamente prestígio e status social. Hoje, vemos que os fumantes padecem dramaticamente de uma censura que os tornam seres indesejáveis. Impossível deixar de registrar essa transformação radical de comportamento.

 

As indústrias automobilística e de alimentação, certamente, sofrerão nos próximos anos grandes alterações por força de novos valores que vão se impondo. No caso da primeira, a idéia de que o importante é garantir a mobilidade urbana e se criar alternativas ao automóvel. No caso da indústria alimentícia, a sociedade irá exigir alimentos mais saudáveis e que não contribuam para a epidemia mundial de obesidade e diabetes.

 

Essas demandas transcendem setores da economia e representam, na minha opinião, essa tão desejada transformação na sociedade de consumo.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 27 de fevereiro de 2014.