O bom exemplo paulista

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- outubro 14, 2013

São Paulo viveu, nas últimas semanas, a grande polêmica das sacolas plásticas, que colocou em polos opostos os supermercados paulistas e a indústria do plástico.

A controvérsia surgiu de um acordo entre o governo paulista e a Associação Paulista de Supermercados (Apas ), que determinou o fim da entrega gratuita de sacolas plásticas nos caixas dos supermercados.

Desta forma, aqueles que quiserem se utilizar de sacolas terão que comprá-las, com a garantia de que estas sejam biodegradáveis.

O primeiro aspecto a ser assinalado diz respeito ao acordo estabelecido entre o poder público e a entidade representativa dos supermercados, substituindo a obrigação por força de legislação específica, a exemplo do que já existe em várias cidades do mundo e brasileiras.

Fora do Brasil, especialmente em alguns países europeus como a Holanda, é comum o estabelecimento deste tipo de acordo (covenants), que fixa metas com setores da economia, com a vantagem de que estes excluem os caronistas (free rider),evitando, com isso, desvantagens competitivas com aqueles que adotam práticas mais sustentáveis.

Por ocasião da minha gestão na Secretaria de Meio Ambiente, a Cetesb estabeleceu alguns covenants através de câmaras temáticas.

E, mais recentemente, com a edição da Política Nacional de Resíduos Sólidos, há um esforço de se estabelecer tais iniciativas com o objetivo de se implantar a logística reversa, ancorada no princípio da responsabilidade pós-consumo.

Este determina que o setor empresarial tem responsabilidade além da venda dos bens e serviços (o que pode parecer óbvio, mas dificultou a tramitação da matéria no Congresso Nacional por quase 20 anos…).

A iniciativa pode ser um marco importante no engajamento das grandes redes de varejo que estão em busca da implantação de uma economia verde, pelo fato de que estas, ao estabelecerem critérios de sustentabilidade na aquisição de bens e serviços, estarão promovendo uma verdadeira revolução na cadeia produtiva.

Um exemplo seria a exigência da rastreabilidade da carne, com o objetivo de excluir a pecuária responsável pelo desmatamento dos biomas brasileiros.

Nesse contexto, o repertório potencial é imenso: os supermercados poderiam excluir das gôndolas produtos de pesca relacionados às espécies em extinção, bem como produtos com alto teor de açúcar e gordura trans.

Poderiam, inclusive, ir mais além, estabelecendo critérios básicos em relação à contaminação de alimentos por pesticidas e ao bem-estar animal.

Ao se estabelecer tais iniciativas pela entidade representante dos supermercados como a Apas, certamente há maior probabilidade de se evitar práticas abusivas que escondem abuso de poder econômico.

Além disso, algumas redes varejistas podem encarar, através dessas iniciativas, uma afirmação importante da sua marca (brand), como estratégia de agregação de valor a este ativo intangível tão importante.

Voltando ao caso paulista, creio que o presidente da Apas, João Galassi, reconheceu em entrevista que parte da controvérsia havida se deveu ao não engajamento de atores importantes na questão, como o Procon e o Ministério Público estadual.

Ou seja, questões que afetam tão dramaticamente o cotidiano das pessoas exigem uma ampla consulta aos stakeholders (partes interessadas), o que demanda muito esforço no início, mas garante, a médio prazo, maior adesão e legitimidade a tais iniciativas.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 27 de fevereiro de 2012.