O exemplo da turma do bem

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- outubro 14, 2013

Existem muitas dúvidas sobre a Rio + 20 a se realizar no Rio de Janeiro no ano que vem, ainda que seja importante assinalar que no calendário internacional esta é a principal reunião da década.

Os prazos estão se esgotando para se apresentar sugestões, mas todos os envolvidos estão cautelosos com receio de fixar expectativas muito altas que possam não ser atendidas.

A memória do fracasso de Copenhague continua viva. É bom lembrar que a Rio + 20 deve ter como tema principal o desenvolvimento sustentável em suas várias dimensões, enfatizando seu caráter operacional, sem abertura para discussões retóricas, despidas da possibilidade de implementação.

O que se quer é a ação dos governos, do setor empresarial, da sociedade civil e mecanismos que permitam monitorar os resultados.

Na semana passada, tive um proveitoso diálogo com duas pessoas estratégicas no tema: Yolanda Kakabadse e Pedro Tarak. Yolanda é uma grande referência, com experiência no Ministério do Meio Ambiente do Equador, na presidência de importantes ONGs e preside a família WWF.

Pedro é um dos primeiros advogados no mundo a trabalhar na formulação do direito ambiental, com grandes credenciais na América Latina, sendo um dos pilares da sustentabilidade.

Chegamos à conclusão de que um dos temas mais importantes a ser tratado no Rio é o empreendedorismo, tanto social, quanto empresarial. Há que se criar um ambiente que estimule práticas empreendedoras que sinalizem a possibilidade de implantar iniciativas transformadoras em relação aos velhos paradigmas incapazes de incorporar a dimensão da sustentabilidade.

Há um reconhecimento de que o setor empresarial apresenta uma atitude diferente que há vinte anos atrás, valendo lembrar que no Rio as empresas se encontravam impactadas pelo acidente de Bophal na Índia e não viam com bons olhos a aliança com as ONGs.

Estas, por sua vez, adotavam uma estratégia de confronto com as empresas, sem espaço para qualquer possibilidade de cooperação.

Um bom exemplo de empreendedorismo social tem sido dado pela turma do bem, uma ONG liderada pelo dentista Fábio Bibancos, com o objetivo de engajar dentistas no atendimento de crianças e jovens carentes. Uma simples ideia se transformou em um dos projetos de voluntariado mais bem-sucedidos do mundo, com números bastante expressivos.

Participei de um treinamento desta ONG com 400 dentistas de todo Brasil, cujo tema era como formular políticas públicas que permitam que cuidados com a saúde bucal se transformem em um direito da população.

Vale lembrar que bocas mal cuidadas representam uma barreira social inimaginável, impedindo acesso a bons empregos e afetando relacionamentos pessoais.

As propostas da turma do bem são simples: distribuição de pasta de dente, enxaguantes e fio dental nas cestas básicas para que as famílias carentes possam prevenir problemas de cáries, mau hálito, etc.

Influenciar os tomadores de decisão com a finalidade de que a merenda escolar tenha uma alimentação mais saudável, com menos açúcar, orientando desde cedo as crianças a adquirirem bons hábitos alimentares. Estimular a reciclagem de produtos como pasta de dente e fio dental, combatendo o desperdício de embalagens.

Mas o que há de mais importante na turma do bem é a capacidade de formular uma ideia brilhante e colocá-la em prática. Para tanto, tais iniciativas devem ter espaço privilegiado na Rio + 20.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 17 de outubro de 2011.