O futuro que nós queremos

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- outubro 14, 2013

Na semana que passou algumas notícias chamaram atenção: a autorização para entrada de carne suína brasileira nos EUA e, quase simultaneamente, a suspensão da importação de suco de laranja brasileiro por contaminação de um fungicida.

Se de um lado a boa notícia significa a abertura de um mercado enorme para as exportações do país, por outro lado a má notícia traz preocupação pelo fato de que, se o suco de laranja é prejudicial à saúde dos americanos, certamente os mesmos malefícios são previsíveis para os nossos compatriotas.

Há muito tempo enfrentamos barreiras à exportação de produtos brasileiros por motivos dos mais variados, sendo que em situações como a do suco de laranja sempre surge quem diga que se trata apenas de medidas protecionistas com o objetivo de impedir o acesso aos produtos brasileiros. Ponto.

Lembro que na década de 70 se comercializavam, nas prateleiras dos supermercados brasileiros, carnes enlatadas com rótulos em inglês que se introduziam no mercado nacional por não atenderem critérios da legislação americana.

E aqui eram vendidos como de melhor qualidade por serem “produtos de exportação”.

Hoje, no mundo globalizado em que a informação está mais disponível, certamente tal prática é de difícil aceitação por parte dos consumidores nacionais. O próprio setor empresarial brasileiro entende hoje a necessidade de valorizar a certificação de origem e qualidade com o objetivo de alcançar melhor remuneração.

Aliando-se a isso o fato de que as grandes redes de varejo no Brasil também estão “abraçando” a causa da sustentabilidade, existem razões para se supor que os padrões internacionais passem a ser incorporados pelo mercado nacional.

O ambientalismo, por sua vez, “está pagando o preço do seu sucesso”, de acordo com o embaixador André Corrêa do Lago, um dos responsáveis pelas negociações climáticas e da Rio+20.

Concordo inteiramente com esta visão de que o patamar de consciência ambiental hoje é incomparavelmente maior do que há três décadas e que o grande desafio do ambientalismo é como incorporar esse sucesso de modo a avançar concretamente na implementação de uma nova “visão de mundo”.

Na agenda da Rio+20, a ideia de se discutir “uma economia verde” sinaliza, em princípio, nesta direção. Entretanto, o documento inicial divulgado pelas Nações Unidas – The Future We Want – é absolutamente decepcionante, exatamente porque foi incapaz de incorporar o que surgiu de novo no mundo nos últimos anos.

A ideia de termos uma economia que incorpore os novos elementos dessa visão de mundo é o grande desafio, como tem assinalado brilhantemente o economista Ricardo Abramovay em seu documento “Transição para um nova economia”.

E estas preocupações deveriam constar necessariamente da agenda daqueles que planejam a economia brasileira, assegurando que a mesma, na produção de seus bens e serviços e consumo, incorpore estas novas demandas da sociedade.

Infelizmente ainda vemos no Brasil um enorme conservadorismo na compreensão de que há necessidade de o poder público liderar esse processo de tornar a nossa economia mais verde ou sustentável mediante políticas públicas adequadas.

Enfim, há que pensar o futuro que nós queremos com imaginação criativa: é o que está faltando nas discussões da Rio+ 20.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 16 de janeiro de 2012.