O legado da Rio+20

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- outubro 10, 2013

Estamos há poucas semanas da Rio+20 e ainda pendem muitas dúvidas sobre a reunião, quer do ponto de vista logístico, quer do ponto de vista de conteúdo.

No âmbito das Nações Unidas, a discussão do draft zero, “The future we want”, se torna cada vez mais difícil na medida em que o documento cresce a cada dia. Ele possui 128 itens, o que revela, no mínimo, absoluta falta de foco.

O Brasil, como país anfitrião, tem tido uma posição tímida em relação ao conteúdo por duas razões: não quer desagradar ninguém e, com isso, garantir “quorum” na reunião e também aumentar o apoio ao seu pleito de integrar o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Vejo nesta posição um grande risco porque o sucesso da reunião depende claramente de se avançar em alguns temas importantes e, na medida em que chefes de Estado não acreditam no sucesso dela, ficam menos dispostos a vir ao Brasil.

Temos que estabelecer um ciclo vicioso, colocando um conteúdo mínimo de avanços e, com isso, estimular os chefes de Estado a compartilhar desse sucesso.

Até o momento, há um esforço inaceitável de se diminuir a dimensão ambiental do conteúdo, com ênfase na erradicação da pobreza e nos aspectos sociais.

O governo brasileiro quer mostrar os avanços obtidos nos últimos anos, aliados à visão desenvolvimentista de países em desenvolvimento, fixados no paradigma de Estocolmo em 1972: na prática, o crescimento econômico a qualquer custo e a miséria como a pior poluição.

Se há algum mérito no conceito de Desenvolvimento Sustentável é o esforço de compreender que a falta de cuidado com o meio ambiente hoje, representa um grande ônus social amanhã. Ou seja, ao se incorporar uma dimensão de médio e longo prazo, não há incompatibilidade entre o ambiental e o social.

O melhor exemplo está na conclusão do Relatório de Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial, que demonstrou que a falta de ações de combate ao aquecimento global terá um custo muito maior em termos futuros.

Calcula-se que, com o investimento de apenas 1% do PIB mundial, é possível evitar a perda de 20% do mesmo PIB num prazo de simulação de 50 anos.

Podemos concretamente mostrar exemplos simples no cotidiano: a ocupação de encostas agrava os riscos de deslizamentos que, de tempos em tempos, ocupam as manchetes da mídia; a falta de boas políticas públicas de conservação de energia e água representa enormes investimentos públicos que poderiam ser utilizados para melhorar o padrão da educação pública brasileira e mais, estímulos à indústria automobilística diminuem a mobilidade nas grandes e médias cidades do Brasil e do mundo.

Sob a liderança do Embaixador Rubens Ricupero e de Celso Lafer, houve um encontro com o vice-presidente da República Michel Temer, com o objetivo de se solicitar à Presidência da República um empenho pessoal nestas poucas semanas que restam antes da Rio+20.

Nesta ocasião foi citado o esforço do então presidente Fernando Collor para garantir o sucesso da Rio 92. Certamente a presidente Dilma está diante de uma oportunidade de deixar um grande legado do seu governo para o Brasil e o planeta.

Mas, para isso, deve fazer o seguinte exercício: o que, de fato, deve ocorrer em junho para que na Rio+40 possamos olhar para trás e ter a certeza de que fizemos a nossa parte?

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 12 de abril de 2012