O legado de Zilda Arn

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- agosto 22, 2013

Certamente estamos num período com muitos assuntos, dentre os quais se destacam: Haiti e a morte de Zilda Arns. Em relação ao Haiti, é impossível deixar de registrar a tragédia nesse país, marcado, há décadas, pela pobreza e incapacidade política e institucional de se organizar. Na minha infância e adolescência, François Duvalier, o ex-ditador, era um exemplo de prepotência e desrespeito aos direitos humanos, valendo lembrar que se tratava de um médico com formação no exterior e que impôs ao país décadas de terror através dos tontons macoutes, que significa “Bichos-papões”, em português, tornando-se conhecidas as extravagâncias de sua família em gastos no exterior. Seu filho, Babydoc, era conhecido pelos seus gostos exóticos e extravagantes.

 

Acredito que, nas últimas décadas, houve um progresso inegável em termos de censura da comunidade internacional à ditaduras “a la Duvalier”, que se sustentavam graças à tolerância internacional e até mesmo à ausência de legislação de proteção aos direitos humanos. A prisão de Pinochet por determinação de um juiz espanhol, há alguns anos, trouxe luz a essa matéria e, de certo modo, revela que a globalização trouxe consigo avanços importantes na esfera dos direitos humanos, ainda que assistamos episódios de omissão na África e outros continentes. No caso do Haiti, é inegável uma mobilização veloz em termos de “intervenção humanitária”, sendo importante registrar que o Brasil exerce um papel importante naquele país.

 

O ideal é tornar o Haiti, a partir dessa grande tragédia, uma referência mundial de intervenção humanitária rápida associada a uma ação de combate à pobreza.

 

Em relação à Zilda Arns, com quem tive oportunidade de conviver, ainda que esporadicamente, devo dizer que, para mim, ela é um grande exemplo de liderança no sentido mais amplo e melhor da palavra, pelo fato de ter criado um modelo através da Pastoral da Criança, simples em termos tecnológicos, mas de grande alcance social, e o que é mais importante, passível de ser replicado em todo o mundo. Lamentável é o fato de que não tenha sido agraciada com o Prêmio Nobel da Paz. Sua morte e as circunstâncias em que a mesma ocorreu são dignas e coerentes com a sua vida.

 

Do ponto de vista familiar, estive com Rogerio Arns Neumann, filho de Zilda, no sul da Bahia, dois anos atrás. Rogerio está desenvolvendo um belo trabalho com comunidades locais, em busca do desenvolvimento sustentável da região. Há uma publicação, que considero referência no assunto, intitulado “Repensando o Investimento Social: A Importância do Protagonismo Comunitário”.

 

Quando penso no que quero na minha vida, Zilda surge como exemplo, inclusive na esfera da vida privada. Conseguiu transmitir aos filhos valores éticos, que influenciam inclusive em suas escolhas profissionais, o que nem sempre é fácil.

 

Um dos grandes temas relacionados ao aquecimento global e à sustentabilidade de maneira geral, vista sob a perspectiva ética de se considerar os impactos da nossa geração no planeta e nas futuras gerações, diz respeito à produção de alimentos. Estes, por sua vez, estão intimamente ligados ao nosso cotidiano e às decisões que tomamos: a cada refeição, muitas questões podem ser levantadas, desde a qualidade e o impacto dos alimentos em nossa saúde, até mesmo os direitos dos animais envolvidos em nossa dieta alimentar. A ciência, cada vez mais, confirma a associação entre pesticidas e alguns tipos de câncer, bem como uma dieta adequada pode evitar doenças. Já escrevi nessa coluna do Terra sobre esse assunto, inclusive demonstrando como o bem estar animal se transformou num item importante do IFC – International Finance Corporation, braço privado do Banco Mundial, bem como parcerias bem sucedidas entre frigoríficos brasileiros e o Greenpeace.

 

Entretanto, gostaria de comentar um recente artigo publicado no The New York Times, que mostra como a adoção de hábitos mais sustentáveis pode causar uma “disputa verde” entre membros da família. Terapeutas acreditam que a partir do momento em que o tema do aquecimento global passa a fazer parte da consciência das pessoas, ele afeta por inteiro o modo de vida dessas pessoas, desde a escolha de seus alimentos, até o tipo de viagem que pretendem fazer.

 

Ao passo em que essa consciência ecológica cresce, crescem também as disputas familiares: quem faz mais pelo meio ambiente, o que está certo e errado, que tipo de alimento é o mais adequado para se consumir, que restaurante freqüentar, qual o impacto do estilo de vida da família no meio ambiente, que tipo de viagem costuma-se fazer, dentre tantos outros questionamentos. Acredito que esse tipo de conflito construtivo contribui para que a sustentabilidade seja cada vez mais debatida e disseminada, mostrando que o tema definitivamente faz parte do cotidiano e das escolhas pessoais.

 

A conclusão desse artigo é que, neste mundo conturbado que vivemos, há espaço para otimismo e esperança. Na esfera pública, as transformações estão em curso em muitos campos e na medida em que certas temáticas invadem positivamente nossas decisões pessoais, a ponto de gerar conflitos construtivos, podemos ter razão para acreditar nas mudanças necessárias para salvar o planeta e a nós mesmos.

 

Artigo Publicado no Terra Magazine.