Por que os agricultores devem defender as abelhas?

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- setembro 30, 2013

Polêmicas recentes estão colocando luz a uma questão importante: o intensivo uso de pesticidas no Brasil. Este ano, aliás, se completa 50 anos da publicação do livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson, que iniciou a discussão sobre o uso indiscriminado de produtos químicos na agricultura.

O Ibama, recentemente, regulamentou a pulverização aérea de alguns agrotóxicos, o que tem gerado oposição por parte da bancada ruralista, que argumenta prejuízos decorrentes desta medida. Segundo os produtores, os prejuízos serão de bilhões de dólares.

Na década de 80, uma das principais questões levantadas pelo movimento ambientalista dizia respeito a uma pulverização aérea com pesticidas na região de Campinas, com o objetivo de impedir uma proliferação de uma praga do algodão chamada “Bicudo”.

Após muitos embates, obteve-se uma liminar proibindo esta prática pelos riscos à saúde da população atingida e ao meio ambiente. O pesticida em questão era altamente impactante e afetaria indiscriminadamente a praga, seus inimigos naturais, a água e o equilíbrio dos ecossistemas da região.

À época, pouco se falava da importância da polinização como um serviço ambiental indispensável para a agricultura, notadamente as abelhas.

A polinização é um dos principais serviços ambientais prestados pelos ecossistemas e, de acordo com o livro “Polinizadores no Brasil”, seu valor econômico seria de € 153 bilhões, sendo que as verduras e frutas são as categorias de alimentos que mais necessitam de insetos.

“Cerca de 75% da alimentação humana depende direta ou indiretamente de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização animal.”

Em outras palavras, a economia e as nossas vidas dependem da manutenção dos polinizadores, de modo que a iniciativa do Ibama merece total apoio. E mais do que isso.

Os próprios agricultores deveriam incluir na sua agenda a necessidade de manutenção a médio e longo prazo dos fatores de polinização.Vale lembrar que o Brasil tem liderado essa discussão junto à Convenção da Diversidade Biológica da ONU, através do Ministério do Meio Ambiente, e que hoje a Secretaria Executiva desta última é exercida pelo brasileiro Bráulio Dias.

Desse modo, a proteção das abelhas e dos demais insetos polinizadores deveria ser um ponto de convergência entre agricultores, ambientalistas e comunidade científica.

O que estamos vendo, ao contrário, é um ataque inconsequente à iniciativa do Ibama, privilegiando, uma vez mais, uma visão de curtíssimo prazo. E o que chama atenção é que tal posição contraria a recente publicidade veiculada na televisão que afirma que a agricultura brasileira é a mais sustentável do mundo.

Outra polêmica diz respeito à aprovação pela Anvisa de um pesticida, em descumprimento à legislação que regulamenta a matéria, a Lei nº 7.802/89, dos agrotóxicos, pelo fato de que o pesticida aprovado tem impactos mais nocivos à saúde do que outro já comercializado.

O que dirão as pessoas que já sofrem de câncer e outras doenças decorrentes da presença de tais produtos nos nossos alimentos e no meio ambiente?

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 6 de dezembro de 2012.