Proteção dos solos: uma agenda comum

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- setembro 30, 2013

Participei recentemente do primeiro congresso mundial sobre solos – Global Soil Week, em Berlim, a convite do IASS Potsdam – Institute for Advanced Sustainability Studies.

O objetivo do evento foi o de reunir especialistas de todo o mundo para criação de um plano estratégico de proteção dos solos.

Certamente este é um dos temas mais importantes da atualidade pelo fato de que a produção de alimentos depende da boa conservação dos solos. A necessidade de se alimentar 9 bilhões de pessoas, daqui alguns anos, torna essa questão ainda mais relevante.

Há alguns anos surgiu a ideia de se criar uma convenção sobre o assunto. Entretanto, hoje existe muito ceticismo sobre a implementação de tratados internacionais dessa natureza. Prevalece a ideia de que o tema deve ser tratado através da sinergia das três convenções – a Convenção de Mudança do Clima, a da Biodiversidade e a de Combate à Desertificação.

Poucas pessoas têm noção da importância da biodiversidade dos solos e do papel que os mesmos exercem no sequestro de carbono. Uma das principais causas da desertificação está na degradação dos solos.

O Brasil, com a sua agricultura, tem um potencial de liderança indiscutível nessa matéria. No plano interno, infelizmente, este tema não tem a prioridade que merece, sendo que poderia haver uma agenda comum entre agricultores e ambientalistas. Os primeiros precisam conservar a qualidade de seus solos para manter ou mesmo aumentar a sua produtividade.

Além disso, políticas públicas poderiam ser estabelecidas com a finalidade de se reconhecer os serviços ambientais prestados pelos solos e a íntima relação que os mesmos possuem com a produção e conservação de água.

Por sua vez, os ambientalistas, certamente, apoiariam tais iniciativas que, a médio prazo, poderiam agregar valor monetário aos bens produzidos, aumentando a renda dos produtores.

Um dos grandes temas do evento foi a necessidade de se estabelecer um gerenciamento de nutrientes (nutrient management). Atividades agrícolas industriais liberam os mesmos no meio ambiente com profundos impactos em termos de poluição de água e comprometimento dos ecossistemas.

Os desafios são imensos uma vez que as atividades humanas produzem 120 milhões de toneladas de nitrogênio reativo todo ano e milhões de toneladas de fósforo contaminam os oceanos, causando problemas que vão da eutrofização à diminuição da produção pesqueira.

Apenas a título de esclarecimento, nitrogênio e fósforo são fundamentais como fertilizantes. A Europa realizou um estudo sobre o assunto denominado European Nitrogen Assessment (ENA) com o propósito de estabelecer um diagnostico e políticas públicas sobre o assunto.

Não seria interessante se os Ministérios do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia e Agricultura fizessem o mesmo? Como dizia Leonardo Da Vinci, “conhecemos mais sobre todos os corpos celestes distantes do que o solo que se encontra embaixo de nossos pés”.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 20 de dezembro de 2012.