Remuneração dos dirigentes de instituições financeiras: um modelo de sustentabilidade?

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- agosto 21, 2013

Às vésperas desse carnaval, é impossível deixar de mencionar a importância da prisão do governador Arruda, do Distrito Federal, ainda que se trate de prisão preventiva, ou seja, não entra no mérito dos atos de corrupção propriamente ditos. Como já mencionei nesta coluna, o caso de Brasília é marcado pela desfaçatez e arrogância como os vídeos demonstraram para o Brasil.

Ainda que seja impossível se prever o desfecho desse escândalo, creio que o bom exemplo já foi dado.

Gostaria de discutir brevemente a proposta do Banco Central de regulamentar a remuneração dos administradores e empregados das instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, que atualmente encontra-se em discussão. Em primeiro lugar, trata-se de uma iniciativa discutida no G-20, o que me parece importante na medida em que revela a necessidade de se suprir o déficit de regulação a nível global. Segundo nota do Banco Central, “a proposta de regulação baseia-se nos compromissos assumidos pelos líderes do G-20 em abril e setembro de 2009 voltados ao fortalecimento do sistema financeiro e à implementação coordenada de padrões de regulação prudencial para gestão de riscos”. O tema foi discutido em Davos, dividindo as opiniões e está longe do consenso.

O importante é fazer uma analogia entre a remuneração dos dirigentes das instituições financeiras e a discussão da sustentabilidade. Explico: o que norteia a proposta do Banco Central é que se torna necessário se remunerar tais dirigentes de modo que os mesmos tenham sua remuneração vinculada à sobrevivência e saúde de suas instituições a médio prazo. Hoje, como esta remuneração se dá única e exclusivamente em função do resultado do ano, os dirigentes assumem riscos maiores do que deveriam, uma vez que em suas decisões o futuro de suas entidades não é levado em consideração.

Como tem assinalado o presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável – CBCS, Marcelo Takaoka, o grande desafio é colocar na tomada de decisão o médio e longo prazo. Acionistas de empresas muitas vezes têm como única preocupação seus dividendos, a exemplo dos políticos que só pensam nas próximas eleições, deixando de fazer investimentos que tenham repercussão apenas para seus sucessores, sejam eles quem forem.

Creio que a discussão da sustentabilidade passa por essa mesma encruzilhada, a de se confrontar o curto versus médio e longo prazo. Certos investimentos de infra-estrutura, gastos públicos discutíveis e até certos tipos de consumo, podem trazer benefícios imediatos e, por outro lado, comprometer dramaticamente o futuro. É o grande desafio que esta geração está vivendo quando se trata do aquecimento global ou mesmo da insensata marcha de devastação dos nossos ecossistemas, oceanos, enfim, da dilapidação do patrimônio ambiental do planeta.

Não se trata de uma questão brasileira, indo muito além: o questionamento do estilo de vida que praticamos e que se alastra praticamente por todos os países. A economia global depende desse consumo insustentável a médio prazo e há enorme dificuldade em se contrapor a esse padrão de produção e consumo. As medidas de combate à crise no Brasil demonstram claramente a adoção dessa visão de curto prazo, mediante o estímulo ao consumo de automóveis e bens duráveis, como passaporte para a modernidade e inclusão das classes C e D na sociedade de consumo.

Certamente é legítima a inclusão das mesmas em patamares de consumo de determinados bens, mas também temos que assinalar que o acesso a uma educação de qualidade, dieta alimentar saudável, transporte público barato e eficiente e ambiente saudável isento de contaminação são condições importantes para um desenvolvimento sustentável. Todos concordam com isso, mas a realidade demonstra o contrário: poucos investimentos, cujo resultado se dá no médio prazo.

A discussão é como comprometer os tomadores de decisão com uma perspectiva de tempo mais longa. Pais que invistam na qualidade de educação de seus filhos, executivos que pensem na longevidade de suas empresas, consumidores que compreendam que a escolha de bens e serviços deve garantir menor impacto ambiental e políticos que pensem no longo prazo.

Voltando à discussão proposta pelo Banco Central, as nossas escolhas devem incluir o retorno imediato, sem excluir os riscos que se refletem mais a longo prazo. Traduzindo em miúdos, trata-se da mudança da nossa mentalidade atual de valorizar ganhos imediatos e jogar para o futuro a conta. Temos que reaprender que as nossas decisões devem levar em conta as futuras gerações, sem o  que  não haverá esperança.

 

Publicado no Terra Magazine em: 15/02/2010