Rio + 20: a Praça Tahrir da humanidade?

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- outubro 14, 2013

Nas últimas semanas, assistimos manifestações inéditas no mundo. Na Inglaterra, o governo foi obrigado a colocar milhares de policiais nas ruas para conter a ação de jovens que protestavam com uma violência pouco vista na Europa.

Em Israel, manifestações novas, desde a criação do Estado, também surpreenderam, com exigências pontuais de aluguéis mais baixos, entre outras reivindicações.

No Chile, estudantes também protestam contra o governo em prol de um sistema público de educação no país.

No Brasil, ao contrário, poucas manifestações ocorrem contra os escândalos ligados à corrupção, que deixaram de ser monopólio de um partido político.

O assassinato da juíza Patrícia Acioli marca uma nova era no país, uma vez que, com raras exceções nos últimos anos, juízes normalmente não eram alvos do crime organizado, como se supõe que ocorreu neste bárbaro assassinato.

Seria de se supor que milhares de brasileiros fossem às ruas protestar contra essa violência, o que de fato, infelizmente, não aconteceu.

Acredito que a política não é linear, de modo que, quando menos se espera, surgem eventos que provocam grandes alterações, o que chamamos de “tipping points”.

De certa maneira é o que está acontecendo no mundo, sendo que talvez o principal símbolo destes movimentos é o que ocorreu no Egito, na Praça Tahrir. E o relevante, em todos esses fenômenos, é que eles ocorrem fora da política tradicional – partidos políticos – e sem a presença de líderes carismáticos.

O agente catalisador captura o sentimento e a demanda reprimida na sociedade e, a partir de então, há a explosão nas ruas.

Em uma reunião sobre a Conferência Rio + 20, na qual se depositam as esperanças sobre o futuro do planeta e a implantação do desenvolvimento sustentável, surgiu a ideia de transformar o Rio de Janeiro em uma grande Praça Tahrir.

Diante da falência das Nações Unidas e de outros arranjos geopolíticos como o G20, por que não estimular os cidadãos com esperança a, planetariamente, ganhar as ruas e levar suas vozes aos governantes e comandantes das grandes empresas, pedindo menos discurso e retórica e mais ação em favor da inclusão social, do aumento do bem-estar dos povos do mundo e do respeito à natureza?

A exemplo de muitos, confesso que tenho muitas dúvidas sobre a Rio + 20. Tenho dificuldades de compreender o real significado da chamada economia verde e, certamente, não há por que imaginar que vamos rediscutir o conteúdo da Rio 92. Seria como reprisar um filme preto e branco na tela de um Ipad, supondo que estamos diante de um exemplo de inovação.

O desafio está em estimular a nossa imaginação, com o objetivo de transformar esse encontro em algo significativo. Que não assinale exatamente o ser do contra, mas sim a esperança de que somos capazes de mudar o mundo em que vivemos.

Certamente as manifestações em curso no mundo demonstram que o jovem egípcio, israelense, chileno e quiçá o brasileiro querem um futuro diferente do que lhes é oferecido hoje pela sociedade em que vivemos.

Compreender os dilemas e aumentar as possibilidades da juventude, no mundo inteiro, é o que devemos esperar da Rio + 20: apenas ampliar o estilo de vida e os padrões de consumo dos mais ricos, como forma infalível de prosperidade, não será capaz de suprir o desejo de usufruirmos de uma sociedade mais sustentável.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 22 de agosto de 2011.