Rio + 20: a sabedoria de E. F. Schumacher

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- outubro 15, 2013

Um dos temas mais desafiadores no mundo reside em compatibilizar economia e ecologia, valendo ressaltar que as duas palavras têm uma origem comum – “eco/oikos” -, que significa casa. Sintetizando, pode-se dizer que se trata de cuidar da nossa casa: o planeta, o bioma, a cidade, o quarteirão, a nossa rua.

De uns anos para cá, cresceu no mundo a ideia de que os problemas ambientais terão que ser resolvidos no campo da economia, sendo que, no ano que vem, na reunião que vai avaliar os próximos vinte anos do mundo, a Rio + 20, no Rio de Janeiro, um dos grandes objetos de discussão é a chamada economia verde.

Como é sabido, a Rio 92 foi a maior conferência realizada pelas Nações Unidas e lançou as bases conceituais e programáticas para o século XXI, sendo que um de seus principais produtos se denomina Agenda 21, isto é, o conjunto de iniciativas e conceitos que deveriam ser implementados para se promover a transição para o denominado desenvolvimento sustentável.

Este ano se comemora o centenário de E.F. Schumacher, economista alemão que trouxe uma visão muito importante à economia, tendo escrito um ensaio denominado Buddhist Economics (Economia Budista), a cada dia mais atual.

Coincidentemente, esse seu trabalho foi publicado em 1968, ano que marcou o século passado, pelas manifestações estudantis na França. Foi um dos períodos mais ricos de reflexão e questionamento, com repercussões ainda hoje significativas.

De acordo com Schumacher, com a ideia de Economia Budista, a essência da civilização não se resume à multiplicação de vontades, mas à purificação do caráter humano. Quando perguntado sobre o que o Budismo teria a ver com economia, Schumacher respondeu: “economia sem valores é como palavra sem sentido, comida sem nutrição ou sexo sem amor”.

No momento tão fundamental para o planeta, como o atual, no qual o grande desafio é discutir estilos de vida e padrões de consumo, a contribuição de Schumacher se torna muito significativa, pois o progresso material é fundamental, mas insuficiente para criar uma sociedade mais sustentável. É necessário colocar na agenda indicadores não tradicionais, como o Produto Nacional Bruto.

Na França, o presidente Sarkozy solicitou a dois importantes economistas, Amartya Sen e Joseph Stiglitz, que discutissem a temática, o que resultou no “Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress”. Não podemos esquecer que, no Butão, há décadas, se pratica o indicador de felicidade, o FIB – Felicidade Interna Bruta.

No Brasil, infelizmente essa discussão é incipiente, mas acredito que será necessário colocar na nossa agenda o que Schumacher fez há quarenta anos atrás: uma discussão sobre valores e o que queremos para as nossas vidas.

Concretamente falando, assinalar, com a radicalidade necessária, a distinção entre crescimento econômico e desenvolvimento. Colocando isto em relação às nossas escolhas, saber se o importante para a realização pessoal é apenas ampliar a chance de consumir bens materiais, deixando de lado demandas de outra natureza.

Seria muito bom que pudéssemos aproveitar a Rio + 20 para discutir a interface entre a economia e a ecologia, ancorando esse diálogo em uma visão de mundo inspirada nas ideias de Schumacher, que acreditava que a economia precisa ser entendida e praticada dentro do contexto do espírito humano, transformando a sabedoria no principal imperativo da vida humana.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 18 de julho de 2011.