Rio+20: olhar para o futuro

Artigos

- outubro 7, 2013

A Rio+20 se encerrou e com ela, de certo modo, o ciclo das grandes conferências que se iniciou no Rio em 1992. Certamente, a consciência que hoje existe sobre sustentabilidade, aquecimento global, biodiversidade e, mais recentemente, economia verde e governança global se deve a tais eventos que mobilizaram corações e mentes.

Por outro lado, é incontestável que este modelo tem trazido poucos avanços, gerando muita frustração diante das expectativas legítimas geradas na sociedade.

Nesta Conferência, particularmente, houve uma inovação importante que consistiu nos encontros da sociedade civil sobre dez temas, os Diálogos Sustentáveis, mas que não influenciaram de forma efetiva o documento final.

A sociedade civil, inclusive, questionou o texto que mencionava sua ampla participação porque não viu os resultados esperados na reunião.

Mas não foi apenas a sociedade civil que sentiu que sua voz não foi ouvida. Em entrevista essa semana ao jornal Folha de S.Paulo, o sueco Johan Rockström declarou que “os governos não escutam”: um dos conceitos mais importantes e desprezado pela Rio+20 foi o reconhecimento de que estamos ultrapassando os limites do planeta, o que já abordamos nessa coluna algumas vezes.

Do ponto de vista logístico, a realização de eventos em locais muito distantes uns dos outros gerou muitas horas perdidas em congestionamentos e impossibilidade de que os participantes pudessem, efetivamente, conhecer as várias facetas da Rio+20.

Aliás, as comitivas com chefes de estado poderiam ter sido organizadas de modo a dar um “bom exemplo”, no modelo de carona solidária (“car sharing”), uma vez que um dos grandes desafios debatidos, para que as cidades se tornem mais sustentáveis, passa pelo transporte sustentável. Mas o contrário aconteceu, com o bloqueio de ruas e um imenso desconforto para os cariocas e visitantes.

De fato, a conclusão é que devemos reforçar novos arranjos inovadores desde a Rio 92 e procurar fazer com que bons exemplos se tornem modelos a serem replicados.

A C40 – Climate Leadership Group, iniciativa que envolve as 40 maiores cidades do mundo se tornou uma boa referência, a ser eventualmente, replicada por outros entes subnacionais como os estados.

Saindo do Rio, fui à Curitiba em uma reunião do CSI – Cement Sustainability Initiative, iniciativa que procura enfrentar os desafios da indústria do cimento diante do aquecimento global. Explico: o setor é responsável por 5% das emissões mundiais, o que representa mais do que alguns países, a exemplo do próprio Brasil (3%).

O país perdeu a oportunidade de liderar avanços importantes. A sua diplomacia demonstrou enorme competência negociadora inversamente proporcional à audácia necessária para conferir um diferencial nessa reunião em comparação às anteriores.

No plano interno, o governo continua a subsidiar o combustível fóssil com a redução da Cide sobre os mesmos e praticamente ignora os riscos que ameaçam um dos nossos maiores cartões de visita, o etanol.

O importante agora é assegurar que os compromissos assumidos na Rio+20 se deem dentro do calendário estabelecido. Não temos mais tempo a perder.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 28 de junho de 2012.