Rio+20: vai dar tempo?

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- outubro 7, 2013

No dia 5 de junho, foi celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi definida durante a primeira Conferência de Meio Ambiente, realizada pelas Nações Unidas, em Estocolmo, em 1972. Desde então, assistimos a cada ano o mesmo filme: os governos se esforçam em demonstrar compromisso pelo anúncio de medidas de impacto e programas bem sucedidos.

Até recentemente era comum o plantio de árvores, o que deixou de acontecer, pois a mesmice sempre tem o seu preço. Ainda mais quando se verificou que a maior parte delas morreu pela falta de cuidados. É mais fácil plantar do que regar, adubar, podar…

Às vésperas da Rio+20, o roteiro não é diferente: velhas iniciativas são requentadas e colocadas no cardápio como algo inovador e prova de amor com o meio ambiente.

De certo modo, esse é o espírito dessa reunião das Nações Unidas que, até aqui, não disse a quê veio.

Paradoxalmente, não há no calendário da ONU ou mesmo dos grandes eventos internacionais, oportunidade mais preciosa para selarmos o destino da humanidade.

A ciência, a cada novo estudo, demonstra a urgência de tomarmos medidas que possam evitar o colapso da nossa sociedade. Os pessimistas acreditam que ultrapassamos irreversivelmente o sinal vermelho.

Daqui para diante, salve-se quem puder. Na linguagem mais sofisticada, tratem de se adaptar. Afinal, a nossa espécie e as demais já enfrentaram situações semelhantes na história do planeta.

Cínica ou não, essa tem sido a postura que, na prática, os governos têm adotado. O cálculo é de uma aritmética trivial: quantas eleições terão decorrido deste período. Ou na célebre frase de Keynes, “a longo prazo, todos estaremos mortos”.

Na semana passada, foi divulgado o GEO 5 – Global Environmental Outlook, pelo Pnuma – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com o diagnóstico do estado do planeta.

Participei de um dos grupos de sua elaboração e testemunhei a angústia de um dos seus coordenadores em relação aos resultados: “A situação piora a cada relatório e a falta de ação é desesperadora. Tenho vontade de desistir de tudo isso”.

O aumento da consciência ambiental, por outro lado, é incontestável. O ministro Delfim Netto, em entrevista recente, fez dois comentários interessantes: na década de 70, para nós, poluição e progresso eram quase a mesma coisa.

Até aí, nada de novo, até porque esta visão faz parte do Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento de 1975. Mas o interessante veio em uma outra declaração: a minha neta tem sido a responsável pela compreensão que tenho hoje sobre meio ambiente.

Quem nasceu na década de 1970 está pela fase dos 40. Quem nasceu em 1992, com 20. Será que não foi tempo suficiente para fazer o que se discutia naquele período?

Seria a humanidade tão estúpida a ponto de desconsiderar, ainda que por precaução, os reiterados alertas da ciência?

Alguns acreditam que estamos vivendo um grande período de negação, outros, especialmente, preferem desqualificar a ciência, como se vê nitidamente nos Estados Unidos.

Respostas têm sido dadas. O fenômeno das ONGs é recente. O setor empresarial hoje é diferente de 20 anos atrás. A neta do ex-ministro está aí para comprovar que as crianças estão atentas, como estiveram em 1992. Mas será que vai dar tempo?

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 14 de junho de 2012.