“Rolezinhos”: novas demandas dos jovens

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- janeiro 16, 2014

Um dos grandes desafios de países como o Brasil é o combate à desigualdade social. Esta tem um efeito corrosivo na sociedade e requer da mesma muita coragem para o seu enfrentamento, exigindo necessidade de políticas públicas consistentes e duradouras.

 

Hoje está em discussão no Brasil os “rolezinhos”. Algo que começou com certa simplicidade, sem que os seus protagonistas imaginassem a repercussão política presente em muitos foros de debates pelo país afora. Com a judicialização da questão, a polêmica esquentou com a polarização entre aqueles que vêem na concessão de liminares uma ameaça à cidadania e os que a defendem sob diversas justificativas constitucionais.

 

O pano de fundo dessa questão reside na incapacidade da sociedade brasileira em oferecer alternativas de lazer e entretenimento para jovens da periferia: estes, no seu tempo livre, não têm muitas opções nos rincões em que habitam.

 

Para enfrentar estas situações, caberia ao poder público, no desenho de políticas, oferecer equipamentos que permitissem à população de maneira geral usufruir de bens públicos em seu tempo livre. Os eventos realizados no reveillon em todas as grandes cidades brasileiras demonstram que a população demanda por tais iniciativas e o baixo índice de delitos praticados nos mesmos revela que o comportamento dessas multidões é rigorosamente pacífico.

 

Há anos defendo que a implantação de grandes estações de metrô em São Paulo estejam acompanhadas por espaços culturais, que ampliem efetivamente a possibilidade de acesso da população ao nosso patrimônio. Com isso, poderíamos estimular a “economia criativa” da cidade, mobilizando o potencial criativo que possuímos e, simultaneamente, oferecendo alternativa a todos em termos de uso de seu tempo livre em atividades não ligadas apenas ao consumo.

 

Entretanto, torna-se necessária uma mudança de mentalidade dos governantes, que normalmente tratam demandas dessa natureza como desimportantes. Por essa razão, há que se reconhecer a importância desses “rolezinhos” pelo fato de que trazem à tona a indiferença com que tais demandas são tratadas. E, mais do que isso, exigem respostas criativas e inovadoras com investimentos de custo muito baixo.

 

É preciso reconhecer ainda que nos próximos anos assistiremos a ampliação de manifestações como as ocorridas em junho do ano passado e os “rolezinhos” em curso, sendo que cada vez mais irá se impor a necessidade de ampliarmos a capacidade de lidar com as mesmas. Aumentando a compreensão da sociedade em relação às demandas, criando mecanismos efetivos de interlocução e sabendo isolar aqueles que se aproveitam das manifestações para atos de vandalismo.

 

A médio e longo prazo, temos que estabelecer medidas estruturantes de combate à desigualdade social, valendo insistir que o acesso a uma educação de qualidade garante igualdade de oportunidades. Incorporar uma visão holística nas políticas setoriais com o objetivo de torná-las mais abrangentes e capazes de atender, simultaneamente, demandas diversas.

 

Voltando ao metrô, entender que não se trata apenas de resolver o problema grave de transporte público, mas também dar acesso à população a bens culturais. Neste último exemplo, com tais equipamentos, haveria a possibilidade de escalonar a demanda especialmente em horário de pico.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 16 de janeiro de 2014.