Um breve balanço de Poznan.

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- setembro 9, 2013

Chegando ao final da segunda semana da Conferência de Clima em Poznan, na Polônia, algumas considerações merecem ser feitas. Embora eu tenha defendido nesta coluna que este momento de crise financeira se configura como uma excelente oportunidade para se rever velhos posicionamentos e realizar investimentos numa nova economia, esta discussão está ausente em Poznan.

Infelizmente esta conferência carece da adrenalina usual. As fichas estão sendo guardadas para o ano que vem em Copenhagen, fazendo desta reunião um pouco café-com-leite. Copenhagen, pois representa o que foi Quioto em 1997. Traz a expectativa de que será possível estabelecer condições efetivas de combate ao aquecimento global, traduzido em compromissos de redução dramática das emissões de gases de efeito-estufa. Entretanto, ainda não há clareza se teremos um novo protocolo, Quioto 2, ou algo semelhante.

Conversando com ambientalistas e climáticos, concluímos que o maior desafio é político, ou seja, colocar o tema na agenda dos tomadores de decisão. Não podemos esquecer que este não é um problema exclusivamente ambiental. Deveria estar nas pastas econômicas e estratégicas dos países, exatamente porque do ponto de vista dos impactos do aquecimento global, grande parte das atividades econômicas será afetada, seja na agricultura, seja na infra-estrutura dos países, entre outros impactos. Para diminuir as emissões, torna-se necessário repensar a economia dos países, substituindo a atual matriz energética através de investimentos e instrumentos econômicos.

A eleição de Barack Obama abre espaço para uma nova liderança dos EUA nesses temas globais, mais construtiva e propositiva, bem como a existência de uma demanda efetiva por parte da sociedade em praticamente todos os países por mudanças na direção de um desenvolvimento que incorpore a sustentabilidade nas suas várias dimensões, e não da forma compartimentada como vem ocorrendo até então. Não podemos esquecer que o pós Rio 92 se caracterizou por uma fragmentação de temáticas através das várias convenções ambientais, como as de diversidade biológica, mudança do clima, desertificação, mantidas e distanciadas das outras discussões importantes em curso como a Rodada de Doha, e outras.

No entanto, é difícil esperar grandes mudanças vindas de uma COP, uma vez que é formada por delegações de pouco poder e representação política. Cabe insistir no que tenho mencionado há anos, que o ideal seria a realização de uma ECO 92, com a presença de chefes de Estados, numa edição renovada da Cúpula da Terra. Não nos esqueçamos que dos anos 1990 para cá, o mundo mudou radicalmente, de modo que a convocação de uma grande conferência com o foco nas mudanças climáticas e numa economia verde poderia criar momentum para um rearranjo efetivo das instituições globais e representar efetivamente uma garantia de ação.

O que se vê, entretanto, é a falta de prioridade que o tema ocupa na agenda dos países em desenvolvimento, em que pesem os planos anunciados pelos governos. Participando de um evento paralelo, fiquei surpreso quando um chinês comentou que no departamento de mudança climática da China, existem apenas 18 pessoas trabalhando. Perguntei a ele se eram 80 ou 18. Para as pessoas que gostam de indicadores sugiro dividir a população da China por 18…

No Brasil a situação não é diferente. Os responsáveis pelo Clima, do Ministério de Ciência e Tecnologia, continuam os mesmos de dez anos atrás. São guerrilheiros em busca de recursos e enfrentando nas negociações as delegações dos países industrializados, em número muito maior, normalmente apoiadas pelos melhores estudos das universidades.

Para alguém como eu, veterano no assunto, não vejo essas negociações refletindo a urgência que o tema merece, havendo longa distância entre o que aqui acontece, e os alarmes dados pela realidade e pela própria comunidade científica. Devo confessar que sempre sinto um paladar estranho nessas COPs. O Brasil poderia estar dando show de bola nesse assunto. Temos massa crítica do ponto de vista de ciência, uma sociedade civil bem organizada, setor empresarial relativamente cosmopolita, uma mídia preparada. O que nos falta? Criar uma liderança política que vislumbre no tema a possibilidade de nos prepararmos efetivamente para o aquecimento global, dando exemplo em termos de redução de emissões – não apenas desmatamento-, efetivamente criando uma economia verde que promova a conciliação entre o bem estar dos brasileiros e a manutenção do capital natural do planeta.

Artigo publicado no Terra Magazine.